CONHECIMENTO DA POPULAÇÃO SOBRE EXERCÍCIO FÍSICO

(Population Knowledge on Physical Exercise)

 

Domingues MR; Araújo CLP; Gigante DP

 

Artigo baseado em dissertação de mestrado apresentada ao Programa de Pós-graduação em Epidemiologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Pelotas em dezembro de 2002

 

RESUMO

O objetivo deste estudo foi avaliar a percepção e o conhecimento sobre o exercício físico em uma população adulta urbana e estudar a associação entre o nível de conhecimento e características socioeconômicas, demográficas e comportamentais. O delineamento utilizado foi do tipo transversal, de base populacional, e incluiu 3182 indivíduos com idade igual ou superior a 20 anos. O questionário desenvolvido para pesquisa gerou um escore de conhecimento (0 a 25 pontos). O escore médio na população foi de 17,1 (DP = 4,0). Após ajuste, o sexo feminino, a faixa etária entre 30 e 40 anos, elevados níveis social e de escolaridade, mostraram-se fortemente associadas ao desfecho (p < 0,001). Também estiveram associados (p ≤ 0,01) maiores níveis de atividade física, cor da pele branca e maiores IMC’s. Os resultados indicam que benefícios específicos do exercício são desconhecidos por parcelas da população. O aconselhamento sobre as vantagens de uma vida ativa não é uma prática comum entre médicos e professores.  

Palavras-chave: CONHECIMENTO, PERCEPÇÃO, EXERCÍCIO FÍSICO, POPULAÇÃO, EPIDEMIOLOGIA

 

ABSTRACT 

This study aimed to describe and evaluate perception and knowledge on physical exercise in an urban adult population and relate knowledge level to behavioral, demographic and social economic characteristics. Cross-sectional study, population-based, 3182 participants aged 20 or older. The questionnaire developed for the research originated a score (range 0 – 25 points). Average score for the sample was 17,1 (SD = 4,0). After adjustment, female gender, ages between 30 and 40, higher social strata and schooling were strongly associated (p < 0,001) to the outcome (knowledge). Weaker associations (p ≤ 0,01) were observed between score and higher body mass index (BMI), physical activity level and white skin color. Results indicate that specific benefits from exercising are still unknown by some population groups. Teacher and medical counseling about advantages of an active living is not a usual practice.

Keywords: KNOWLEDGE, PERCEPTION, PHYSICAL EXERCISE, POPULATION, EPIDEMIOLOGY

 

 



INTRODUÇÃO

            O sedentarismo é visto atualmente como um problema mundial de saúde (BLAIR et al., 1996; PATE et al., 1995). Entre as razões que levam à inatividade, um dos possíveis fatores é o desconhecimento sobre como se exercitar, as finalidades de cada exercício, limitações de alguns grupos populacionais, e percepções distorcidas em relação aos benefícios do movimento.

            Freqüentemente considerados como equivalentes, os termos “atividade física” e “exercício físico” não são sinônimos. Segundo Caspersen et al. (1985), atividade física é qualquer movimento corporal produzido pela musculatura esquelética, que resulte em um gasto energético maior do que os níveis de repouso, enquanto que exercício físico é toda atividade física planejada, estruturada e repetitiva que tem por objetivo a melhoria e a manutenção da aptidão física.

            O fato de possuir o conhecimento não implica necessariamente na prática de exercício, mas sem o conhecimento e percepção corretos sobre o tema é improvável que atitudes sejam tomadas no sentido de alterar um padrão comportamental. Além disso, maiores níveis de conhecimento sobre exercício podem fazer com que os níveis de sedentarismo não aumentem (VUORI et al., 1998).

            Sabe-se hoje que o exercício físico pode ser um fator protetor para uma série de males, entre os quais destacam-se: obesidade, doenças cardiovasculares, diabetes, osteoporose, depressão e maior morbi-mortalidade por qualquer causa (PITANGA, 2001; WHO, 2002). No entanto, muito desse conhecimento não é adequadamente divulgado fora do meio acadêmico, permanecendo oculto para grande parte da população. Os motivos que levam ao desconhecimento vão da falta de vontade própria em buscar informação até a inexistência de programas governamentais de esclarecimento, passando pelos profissionais de saúde que, muitas vezes, também ignoram o valor do exercício físico e/ou não são efetivos no incentivo à prática regular de exercícios.

            Com a finalidade de avaliar o conhecimento e a percepção sobre exercício físico em uma população adulta urbana, foi feito um estudo procurando medir e descrever as características populacionais com relação ao assunto.

 

METODOLOGIA

Foi realizado um estudo transversal, de base populacional, entre março a maio de 2002, em sistema de consórcio entre o grupo de mestrandos do Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia (UFPEL – RS). Um questionário elaborado em conjunto, contendo questões de interesse geral, bem como questões específicas de cada pesquisador, foi aplicado à população.

Esta amostra, representativa da população de Pelotas - RS, foi selecionada por conglomerados em 2 estágios, e composta por pessoas de ambos sexos com idade igual ou superior a 20 anos. Os 281 setores censitários da zona urbana do município foram divididos de acordo com quatro estratos de escolaridade do chefe da família, e 80 setores foram sorteados.

De posse da listagem de domicílios elegíveis (excluindo os desabitados ou puramente comerciais), foram sorteados sistematicamente 20 domicílios de cada setor para compor a amostra, chegando-se a um total de 1600 domicílios e uma previsão inicial de 3360 pessoas elegíveis para a amostra.

Cálculos amostrais posteriores (por diferenças de médias) demonstraram que a amostra obtida permitiu um poder estatístico igual ou superior a 80% para todas as variáveis, com exceção do IMC, que exigiria uma amostra muito superior, inviabilizando o estudo.

Após ampla revisão bibliográfica e contato com pesquisadores da área não foi possível identificar um instrumento validado para avaliar conhecimento sobre exercício físico.  Sendo assim, elaborou-se um questionário que foi testado em três situações de campo antes de ser definitivamente aplicado. Esses testes serviram para aperfeiçoar o instrumento, tornando-o mais adequado à compreensão da população estudada.

O objetivo deste questionário era identificar o conhecimento sobre: benefícios do exercício físico, prejuízos do sedentarismo, limitações e finalidades do exercício, e ainda avaliar a percepção sobre o assunto.

No Quadro 1 podem ser encontradas as  nove questões fechadas, de simples e múltipla escolha, com a respectiva pontuação para elaboração do escore. As alternativas em destaque indicam as respostas consideradas corretas. A primeira e a última questão não faziam parte do escore, apenas da análise de percepção.

Algumas questões possuíam alternativas com pontuação crescente (por exemplo, muito errado, errado, correto, mais correto e muito correto). As questões possuíam pesos diferenciados. Esta ponderação foi necessária uma vez que algumas apresentavam maior grau de dificuldade e/ou tratavam de assuntos de maior relevância. O grau de dificuldade de algumas questões pôde ser percebido durante os estudos-piloto. Todos os valores das questões foram estabelecidos anteriormente à coleta de dados final e elaboração do escore.

            A partir dos dados do questionário foi possível gerar dois conjuntos de informação – um escore de conhecimento e uma descrição dos itens pesquisados. O escore foi obtido através das respostas, e a pontuação total poderia variar entre 0 (zero) e 25 (vinte e cinco). Respostas erradas não diminuíam a pontuação, apenas não acrescentavam pontos ao escore.

Para o trabalho de campo, uma equipe de 40 entrevistadoras foi utilizada após seleção, treinamento e testagem para a coleta dos dados do consórcio. Os entrevistados consentiam verbalmente em participar da pesquisa antes do início da entrevista.

            As variáveis independentes estudadas foram definidas da seguinte forma: Sexo – masculino ou feminino; Idade – coletada em anos completos; Cor da pele – observada pela entrevistadora e classificada como branca ou não-branca; Nível social – dados coletados e classificados com base no questionário padronizado da Associação Nacional de Empresas de Pesquisa (ANEP, 2002). Nível A, B, C, D ou E; IMC (índice de massa corporal) – baseado no peso e altura referidos pelo entrevistado. A classificação nutricional utilizada foi aquela recomentada pela OMS (WHO, 1995): normal (IMC<25,0), Sobrepeso (25,0<IMC< 30,0) e Obesidade (IMC³30,0); Prática de religião – declaração do entrevistado como praticante ou não praticante; Escolaridade – coletada em anos completos de estudo; Auto-percepção de saúde – opinião do entrevistado - saúde, Excelente, Muito boa, Boa, Regular ou Ruim; Situação conjugal – sem companheiro [solteiro, separado, desquitado ou viúvo] ou com companheiro [namorado, marido/esposa ou companheiro]; Tabagismo – fumante (1 ou + cigarros/dia, há mais de 1 mês), não-fumante (nunca fumou) e ex-fumante e Atividade física versão curta do IPAQ (IPAQ, 2002).

Todos os questionários foram inicialmente revisados pela própria entrevistadora e, a seguir, pelo seu supervisor. Os dados foram digitados duas vezes (EpiInfo 6.04b)  a fim de identificar erros de digitação. A análise de consistência e a análise estatística foram realizadas utilizando-se o pacote estatístico Stata 7.0 (StataCorp).

Os supervisores de trabalho de campo realizaram uma revisita em 10% da amostra utilizando uma versão resumida do questionário. Estes questionários de controle de qualidade foram usados para cálculo de concordância (coeficiente kappa).

            Inicialmente foi feita a descrição da amostra e em seguida realizou-se uma análise bruta da variável desfecho (escore de conhecimento) com as variáveis independentes. Devido às grandes diferenças apresentadas entre os resultados entre homens e mulheres, toda análise (descritiva, bruta e ajustada) foi realizada para toda a amostra e separadamente para cada sexo.

            Para a realização da análise bivariada, o escore foi categorizado em quartis (0-14; 15-17; 18-20; 21-25). Os quartis permaneceram em forma de valor absoluto, uma vez que até o momento não existe referencial teórico amplamente aceito para categorizar o conhecimento.

Nesta fase (análise bruta) as variáveis que apresentaram valor de p < 0,2 foram mantidas e levadas para análise ajustada enquanto que as demais foram descartadas. Para as variáveis com mais de duas categorias foi realizado teste para verificar a tendência linear, e para as de duas categorias o teste de heterogeneidade de médias.

            Durante a análise ajustada (regressão linear múltipla) o escore foi tratado de forma contínua (0 – 25). Em todas as análises foi levado em conta o efeito do desenho amostral para o desfecho (DEF = 3,6). Foi realizado diagnóstico do modelo através de gráficos de resíduos e de resíduos padronizados com os valores preditos.

           

RESULTADOS

Ao final da pesquisa, excluindo-se 5,6% de perdas e recusas, obteve-se uma amostra total de 3182 pessoas.

O escore de conhecimento em toda população apresentou o valor médio de 17,1 (desvio padrão = 4,0). Entre os homens, o valor foi de 16,7 (DP = 3,9) e entre as mulheres 17,5 (DP = 4,1).

A Tabela 1 descreve as freqüências das variáveis referentes à percepção do exercício físico para toda a amostra e, separadamente para homens e mulheres. Pode ser observado que os homens referem saber mais em relação às mulheres, no entanto elas responderam mais corretamente às questões em geral, e ambos os sexos referem que gostariam de saber mais sobre o assunto.

A grande maioria da população reconhece a importância do exercício físico, porém menos de 20% considera-o como sendo indispensável nos processos de crescimento e envelhecimento saudáveis.

Mais da metade da população identifica que realizar exercício físico por 30 minutos, três vezes por semana é o mínimo necessário para que os benefícios sobre a saúde possam ser percebidos. Além disso, mais de 50% da amostra considera a caminhada como um excelente exercício para o emagrecimento.

Ainda nesta tabela pode ser observado algum desconhecimento, pois persiste um certo preconceito quanto à possibilidade da prática de exercício por populações com aparentes limitações, como pessoas idosas e/ou com certos problemas de saúde.

Chama a atenção que entre os cinco problemas mais citados como alteráveis pelo exercício apareceram o estresse, a depressão, a ansiedade e a insônia, enquanto outros problemas como colesterol alto, hipertensão e osteoporose foram menos citados.

Os meios de comunicação foram a fonte de informação sobre os benefícios do exercício físico mais freqüente, seguida pelo médico e por parente ou amigo. Cabe salientar que mais de um quinto da amostra refere que nunca recebeu este tipo de informação.

Na Tabela 2 pode-se observar a média e o desvio padrão do escore de conhecimento sobre exercício físico, segundo as diversas variáveis independentes, incluídas neste estudo. Além disso, são apresentados também os valores dos escores categorizados por quartis de freqüência.

Considerando-se a amostra toda foram significativas as associações entre as categorias do escore e sexo, idade, cor da pele, nível social, escolaridade, tabagismo, IMC e autopercepção de saúde.

A tabela 3 apresenta os resultados médios do escore por categoria e as associações entre as categorias do escore e as variáveis independentes, separadamente para homens e mulheres. Deve-se destacar que as associações observadas mostraram-se diferentes entre os sexos. Para as mulheres todas as associações, exceto IMC e tabagismo, apresentaram significância estatística. Já para os homens apenas o nível social, a escolaridade, o tabagismo e o IMC estiveram associados. Em relação à classificação quanto ao nível de atividade física os homens apresentaram níveis ligeiramente mais altos de atividade, embora esta diferença não seja estatisticamente significativa.

A Tabela 4 apresenta os resultados da regressão linear múltipla das variáveis independentes sobre o conhecimento para a amostra total e estratificada por sexo. Conforme a apresentação na tabela, as variáveis eram ajustadas em relação às anteriores. Observando-se esta Tabela, no que se refere à amostra total, apresentaram significância estatística o sexo, a idade, a cor da pele, o nível social, a escolaridade, o nível de atividade física e o IMC. Os coeficientes b indicam a magnitude da modificação nos escores de conhecimento, em cada categoria das variáveis independentes, usando como base a categoria com os piores escores. Entre os homens, a associação com o desfecho (p < 0,05) ocorreu apenas para nível social, escolaridade e IMC. Entre as mulheres o escore de conhecimento mostrou-se significativamente associado com idade, nível social, escolaridade, atividade física, cor da pele e situação conjugal.

O teste Kappa para a questão escolhida (fonte de informação sobre exercício) mostrou um coeficiente de concordância igual a 0,4, que corresponde a um nível moderado. Entretanto, deve-se levar em consideração que o tempo decorrido entre a entrevista e a revisita apresentou mediana de 15 dias. A pergunta escolhida poderia, em algumas ocasiões, gerar um viés, pois o entrevistado poderia confundir todo o processo de entrevista com alguma espécie de aconselhamento.

O diagnóstico através dos gráficos de resíduos (normal e padronizado) mostrou que o modelo estava adequado, sem fuga da linearidade, apresentando normalidade e homogeneidade de variância.

 

DISCUSSÃO

O conhecimento sobre exercício físico mostrou-se diferente entre homens e mulheres. Também os fatores envolvidos na determinação de tal conhecimento variaram entre os sexos, sendo que apenas escolaridade e nível social apresentaram associações na mesma direção em ambos os sexos. Tais diferenças talvez se expliquem por uma possível diferente visão que homens e mulheres possam ter sobre exercício físico.

Considerou-se satisfatório o nível de informação da população sobre a freqüência mínima necessária para que o exercício gere benefícios à saúde, tendo em vista que mais da metade respondeu acertadamente que a partir de três sessões semanais de 30 minutos os ganhos começam a surgir. Cabe destacar que um número maior de sessões poderia gerar benefícios maiores, no entanto esta avaliação visava identificar o conhecimento apenas em relação à quantidade mínima de sessões. Esta alternativa do questionário seria a mais semelhante quando comparada às recomendações internacionais (ACSM, 1998). Esta conclusão é reforçada pelo fato de que menores prevalências foram encontradas nas alternativas mais incorretas, fosse na freqüência semanal ou na duração da sessão.

Com relação ao melhor exercício para o emagrecimento a partir das alternativas apresentadas, a maior prevalência foi encontrada para caminhada, concordando com as recomendações baseadas nos princípios de fisiologia do exercício que consideram tal exercício um exemplo perfeito de exercício aeróbico – tipo de exercício que mais possivelmente permitiria o consumo de gordura corporal (HAWLEY, 1998; SPRIET, 2002). Nesta questão surgiu a maior diferença encontrada entre homens e mulheres, uma vez que a quantidade de homens que considera o futebol como o melhor exercício para o emagrecimento foi quatro vezes maior.

Muitos ainda vinculam a possibilidade de realizar exercício físico a características como pouca idade e saúde perfeita. Sabe-se hoje que justamente os que mais se beneficiam do movimento com ganhos na qualidade de vida são as pessoas que possuem limitações e/ou idades avançadas (SBME & SBGG, 1999), no entanto mais de um terço da população ainda considera que fatores como osteoporose, problemas cardíacos e ser idoso são barreiras que impedem a prática de exercícios físicos.

Na análise da percepção, cabe destacar que entre os cinco problemas mais citados pela população como possivelmente alteráveis pelo exercício, o estresse apareceu em primeiro lugar, seguido dos problemas circulatórios e logo após aparecem outros problemas considerados da esfera emocional, como depressão e ansiedade, sendo que o quinto problema foi a insônia.

Chama a atenção que, problemas de saúde tipicamente relacionados ao sedentarismo, estavam entre aqueles menos identificados, dentre as opções das doenças para as quais o exercício físico é classicamente considerado como um fator de proteção. Apesar de toda divulgação do exercício como protetor contra cardiopatias e outras doenças crônicas, os benefícios mais lembrados pelas pessoas não são sobre os males puramente físicos, mais facilmente mensurados e associados ao exercício. Talvez essa noção deva-se ao fato que independente de diagnósticos médicos e exames laboratoriais, mesmo pessoas desinformadas conseguem perceber alterações positivas no seu bem-estar advindas do exercício. A facilidade de prescrição e a maior adesão aos tratamentos farmacológicos também poderiam reforçar a noção de que problemas como hipertensão e hipercolesterolemia pudessem ser tratados apenas com medicação e dietas, o que poderia levar a população a considerar o exercício como menos benéfico no combate a estas morbidades.

As baixas prevalências do reconhecimento de que o exercício pode combater o diabetes, além do que aproximadamente mais de um quarto da população não reconhece o exercício como protetor contra osteoporose e hipertensão, foram achados considerados negativos no presente estudo.

As diferentes redações das questões que abordavam conceitos de causalidade, prevenção e combate de algumas doenças também podem ter levado os entrevistados a respostas diferenciadas no que diz respeito ao verdadeiro poder do exercício físico sobre os males citados.

Comparativamente às mulheres, os homens recebem menos informação dos médicos e mais de professores, o que poderia ser explicado pela maior freqüência das mulheres em consultórios médicos (DA COSTA & FACCHINI, 1997). Por outro lado, os homens de maneira geral, mantém uma relação mais freqüente com professores e treinadores de esportes coletivos. Contudo, os números extremos são preocupantes, uma vez que quase um quarto dos homens ou um quinto das mulheres referem nunca ter recebido informação sobre os benefícios do exercício físico.

TWGACTRG (2001) mostrou que mulheres são mais suscetíveis ao aconselhamento, e que intervenções no sentido de diminuir o sedentarismo possuem um maior impacto sobre elas quando comparadas aos homens.

No presente estudo as mulheres, mesmo possuindo mais conhecimento, não se mostraram mais ativas do que os homens, o que não anula a importância do conhecimento. A maioria dos estudos populacionais utiliza questionários para avaliar os níveis de atividade física, o que para populações é o mais viável. Entretanto, estes inquéritos raramente conseguem medir com fidedignidade satisfatória os níveis de exercício físico. A atividade física por si só, não implica necessariamente, em ganhos no condicionamento físico como, por exemplo, maior consumo de oxigênio e melhor saúde cardiovascular, que junto a outras condições, levam à menor morbi-mortalidade por qualquer causa.

Uma limitação de delineamentos do tipo transversal, que pode ter ocorrido no presente estudo é a causalidade reversa, que pode dificultar a determinação temporal da relação entre causa e efeito. Ou seja, se o conhecimento precedeu a prática de atividade física ou ele é conseqüência desta. Outra limitação particular deste estudo é o fato de que o instrumento foi criado e aplicado pela primeira vez em uma população. Outro aspecto reside na elaboração do escore, que, embora baseado em literatura atual, era formado por valores arbitrários atribuídos pelo criador do questionário.

No presente estudo os fatores mais envolvidos na determinação do conhecimento foram o nível social e o grau de escolaridade, uma vez que estas variáveis apresentaram forte associação em todos os grupos e, com tendência linear. A compreensão desta relação fica clara considerando que o conhecimento sobre exercício físico é parte do conhecimento geral, e que este está vinculado às condições sociais da população.

 

CONCLUSÕES E RECOMENDAÇÕES

Mulheres possuem um maior esclarecimento sobre o exercício físico, mesmo assim não apresentaram, neste estudo, maiores níveis de atividade física. Independente de sexo, existe uma forte associação entre este conhecimento e o nível social e a escolaridade.

As diferenças encontradas entre os resultados de homens e mulheres e níveis sociais, bem como diferenças entre grupos etários, devem ser levadas em conta no planejamento de programas abrangentes de incentivo ao exercício físico.

A criação de locais públicos destinados ao exercício, juntamente com programas locais de divulgação sobre atividade física, pode ser uma ferramenta efetiva no combate ao sedentarismo principalmente, se focalizar esforços nestes dois campos – aconselhamento médico a toda população e ações no âmbito escolar para o incentivo e esclarecimento sobre este tema, mais precocemente. Tais estratégias poderiam possibilitar que, após intervenções, fossem feitas reavaliações para determinar o real impacto destas políticas sobre o comportamento da população.

Futuros estudos que avaliem as questões compreendidas pela relação entre exercício físico e saúde poderão colaborar para a diminuição dos níveis de sedentarismo em qualquer população. Além disso, a utilização de subamostras da população, que permitissem um estudo individual e mais detalhado sobre o condicionamento físico, poderia explicar melhor a relação entre conhecimento e prática de exercício físico.

 

AGRADECIMENTOS

Esta pesquisa teve incentivo financeiro da CAPES.


 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

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BLAIR, S. N.; BOOTH, M.; GYARFAS, I.; IWANE, H.; MARTI, B.; MATSUDO, V.; MORROW, M. S.; NOAKES, T. & SHEPHARD, R., 1996. Development of public policy and physical activity initiatives internationally. Cooper Institute for Aerobics Research, Dallas, TX, USA. Sports Medicine, March 21 3:157-63.

 

CASPERSEN, C. J. POWELL K.E., CHRISTENSON G.M., 1985. Physical activity, exercise, and physical fitness: definitions and distinctions for health-related research. Public Health Report, V100 126-131

 

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DA COSTA, J. S. D. & FACCHINI, L. A., 1997. Use of outpatient services in an urban area of Southern Brazil: place and frequency. Revista de Saúde Pública, August 31 4:360-9.

 

HAWLEY, J. A., 1998. Fat Burning During Exercise: Can Ergogenics Change the Balance. The Physician and Sportsmedicine. V26 N9.

 

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PATE, R. R.; PRATT, M.; BLAIR, S. N., et al., 1995. Physical activity and public health: a recommendation from the Centers for Disease Control and Prevention and the American College of Sports Medicine. The Journal of the American Medical Association, 273 5:402-407.

 

PITANGA, F. J. G., 2001. Epidemiologia da Atividade Física, Exercício Físico e Saúde. Salvador: Editora do Autor.

 

SBME (Sociedade Brasileira de Medicina do Esporte) & SBGG (Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia), 1999. Posicionamento Oficial da Sociedade Brasileira de Medicina do Esporte e da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia: Atividade Física e Saúde no Idoso. Revista Brasileira de Medicina do Esporte, V5 6:207-211.

 

SPRIET L. L., 2002. Regulation of skeletal muscle fat oxidation during exercise in humans. Medicine and Science in Sports and Exercise. V34, N9 1477-1484.

 

STATACORP., 2001. Stata Statistical Software: Release 7.0. College Station, TX: Stata Corporation.

 

TWGACTRG (The Writing Group for the Activity Counseling Trial Research Group), 2001. Effects of Physical Activity Counseling in Primary Care. The Activity Counseling Trial: a Randomized Controlled Trial. The Journal of the American Medical Association, 286 6:677-87

 

VUORI, I.; PARONEN, O. & OJA, P., 1998. UKK Institute for Health Promotion Research, How to develop local physical activity promotion programmes with national support: the Finnish experience. Patient Education and Counseling, April 33 1 Suppl:S111-9.

 

WHO (World Health Organization), 1995. Exercise For Health. WHO & International Federation of Sports Medicine Committee on Physical Activity for Health. Bulletin of the World Health Organization, 73 2:135-136

 

WHO (World Health Organization), 2002. World Health Day 2002 "Move for Health". Department of Noncommunicable Disease Prevention & Health Promotion. 04/11/02 <http://www.who.int/world-health-day>.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Tabela 1. Distribuição das variáveis referentes à percepção e conhecimento do exercício físico para toda a amostra e, separadamente, para homens e mulheres. (N = 3182) Pelotas, 2002.

 

V A R I Á V E L

PREVALÊNCIAS  (%)

Auto-percepção do conhecimento sobre exercício  físico

     Sabe o suficiente 

     Gostaria de aprender mais 

     Não acha necessário saber essas coisas  

     Não tem nenhum conhecimento

todos

homens

mulheres

20,6

60,8

5,6

12,0

25,9

57,6

5,1

10,7

16,6

63,2

6,0

13,0

Importância do exercício no crescimento/envelhecimento

     Sem importância

     Pouco importante

     Muito importante

     Indispensável    

 

0,6

2,1

77,2

19,2

 

0,7

2,0

74,8

21,8

 

0,6

2,1

79,0

17,3

Freqüência mínima de exercício para obtenção de saúde

     10 minutos, 4 vezes por semana

     2 horas por dia, todos os dias

     30 minutos, 3 vezes por semana

     1 hora, 1 vez por semana

 

10,9

16,9

57,7

11,7

 

11,4

20,0

55,9

10,4

 

10,4

14,6

59,1

17,7

Melhor exercício para o emagrecimento

     Futebol 

     Tênis 

     Hidroginástica 

     Caminhada 

     Ginástica localizada

 

12,0

1,6

13,8

54,4

16,4

 

20,8

2,1

15,1

46,3

14,5

 

5,4

1,1

12,9

60,6

17,8

Quem pode executar exercício físico

     Uma criança com menos de 10 anos

     Uma mulher no início da gravidez

     Um idoso com mais de 90 anos

     Uma pessoa com osteoporose e problemas cardíacos

 

84.8

81.0

66.4

59.8

 

83,2

81,4

67,4

56,2

 

85,9

80,7

65,7

62,6

Identificação do exercício como protetor contra doenças

     Estresse

     Depressão

     Ansiedade

     Insônia

     Colesterol alto                                              

     Hipertensão

     Câncer de pele

     Osteoporose

 

93,6

87,7

87,3

81,6

75,4

71,9

17,1

71,0

 

93,3

87,0

86,1

80,7

73,6

70,9

19,8

66,4

 

93,8

88,2

88,3

82,3

76,7

72,7

15,0

74,4

Identificação do sedentarismo como fator de risco

     Problemas de circulação

     Diarréia

     Meningite                                                                                       

     Diabetes

 

91,8

10,5

11,7

42,8

 

91,3

13,5

13,7

42,4

 

92,1

8,2

10,2

43,0

Fonte de informação sobre benefícios da atividade física

     Meio de comunicação

     Médico

     Parente ou amigo

     Professor

     Nunca recebeu informação

 

51,2

51,1

49,7

19.1

21,0

 

49,3

44,6

48,4

24,0

23,6

 

52,6

56,0

50,7

15,3

18,8

O máximo de não respondentes ou que não souberam responder alguma questão  foi de 3,2%

 

 

 

 

 

 

 

Tabela 2. Distribuição das variáveis demográficas, socioeconômicas, comportamentais, antropométricas e sobre a auto-percepção de saúde na amostra total, segundo as categorias (quartis) de escores de conhecimento sobre exercício. Pelotas, 2002 (N = 3182)

 

VARIÁVEL

%

X (± DP)

0 - 14

15 - 17

18 - 20

21 - 25

p

Sexo

   Masculino

   Feminino

 

43,2

56,8

 

16,7 (3,9)

17,5 (4,1)

%

26,1

19,5