CONHECIMENTO DA POPULAÇÃO SOBRE
EXERCÍCIO FÍSICO
(Population
Knowledge on Physical Exercise)
Domingues MR; Araújo CLP; Gigante DP
Artigo baseado em
dissertação de mestrado apresentada ao Programa de Pós-graduação em
Epidemiologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Pelotas em
dezembro de 2002
RESUMO
O objetivo deste estudo foi avaliar a percepção e o
conhecimento sobre o exercício físico em uma população adulta urbana e estudar
a associação entre o nível de conhecimento e características socioeconômicas,
demográficas e comportamentais. O delineamento utilizado foi do tipo
transversal, de base populacional, e incluiu 3182 indivíduos com idade igual ou
superior a 20 anos. O questionário desenvolvido para pesquisa gerou um escore
de conhecimento (0 a 25 pontos). O escore médio na população foi de 17,1 (DP =
4,0). Após ajuste, o sexo feminino, a faixa etária entre 30 e 40 anos, elevados
níveis social e de escolaridade, mostraram-se
fortemente associadas ao desfecho (p < 0,001). Também estiveram associados
(p ≤ 0,01) maiores níveis de atividade física, cor da pele branca e
maiores IMC’s. Os resultados indicam que benefícios específicos do exercício
são desconhecidos por parcelas da população. O aconselhamento sobre as
vantagens de uma vida ativa não é uma prática comum entre médicos e
professores.
Palavras-chave: CONHECIMENTO, PERCEPÇÃO, EXERCÍCIO
FÍSICO, POPULAÇÃO, EPIDEMIOLOGIA
ABSTRACT
This study
aimed to describe and evaluate perception and knowledge on physical exercise in
an urban adult population and relate knowledge level to behavioral, demographic
and social economic characteristics. Cross-sectional study, population-based,
3182 participants aged 20 or older. The questionnaire developed for the
research originated a score (range 0 – 25 points). Average score for the sample
was 17,1 (SD = 4,0). After adjustment, female gender, ages between 30 and 40,
higher social strata and schooling were strongly associated (p < 0,001) to
the outcome (knowledge). Weaker associations (p ≤ 0,01) were observed
between score and higher body mass index (BMI), physical activity level and
white skin color. Results indicate that specific benefits from exercising are
still unknown by some population groups. Teacher and medical counseling about
advantages of an active living is not a usual practice.
Keywords: KNOWLEDGE, PERCEPTION, PHYSICAL EXERCISE,
POPULATION, EPIDEMIOLOGY
INTRODUÇÃO
O sedentarismo é visto atualmente
como um problema mundial de saúde (BLAIR et al., 1996; PATE et al., 1995).
Entre as razões que levam à inatividade, um dos possíveis fatores é o
desconhecimento sobre como se exercitar, as finalidades de cada exercício,
limitações de alguns grupos populacionais, e percepções distorcidas em relação
aos benefícios do movimento.
Freqüentemente considerados como
equivalentes, os termos “atividade física” e “exercício físico” não são
sinônimos. Segundo Caspersen et al. (1985), atividade
física é qualquer movimento corporal produzido pela musculatura esquelética,
que resulte em um gasto energético maior do que os níveis de repouso, enquanto
que exercício físico é toda atividade física planejada, estruturada e
repetitiva que tem por objetivo a melhoria e a manutenção da aptidão física.
O fato de possuir o conhecimento não
implica necessariamente na prática de exercício, mas sem o conhecimento e
percepção corretos sobre o tema é improvável que atitudes sejam tomadas no
sentido de alterar um padrão comportamental. Além disso, maiores níveis de
conhecimento sobre exercício podem fazer com que os níveis de sedentarismo não
aumentem (VUORI et al., 1998).
Sabe-se hoje que o exercício físico
pode ser um fator protetor para uma série de males, entre os quais destacam-se:
obesidade, doenças cardiovasculares, diabetes, osteoporose, depressão e maior
morbi-mortalidade por qualquer causa (PITANGA, 2001; WHO, 2002). No entanto,
muito desse conhecimento não é adequadamente divulgado fora do meio acadêmico,
permanecendo oculto para grande parte da população. Os motivos que levam ao
desconhecimento vão da falta de vontade própria em buscar informação até a
inexistência de programas governamentais de esclarecimento, passando pelos
profissionais de saúde que, muitas vezes, também ignoram o valor do exercício
físico e/ou não são efetivos no incentivo à prática
regular de exercícios.
Com a finalidade de avaliar o
conhecimento e a percepção sobre exercício físico em uma população adulta
urbana, foi feito um estudo procurando medir e descrever as características
populacionais com relação ao assunto.
METODOLOGIA
Foi realizado um estudo transversal, de base populacional, entre março
a maio de 2002, em sistema de consórcio entre o grupo de mestrandos do Programa
de Pós-Graduação em Epidemiologia (UFPEL – RS). Um questionário elaborado em
conjunto, contendo questões de interesse geral, bem como questões específicas
de cada pesquisador, foi aplicado à população.
Esta amostra, representativa da população de Pelotas - RS, foi
selecionada por conglomerados em 2 estágios, e composta por pessoas de ambos
sexos com idade igual ou superior a 20 anos. Os 281 setores censitários da zona
urbana do município foram divididos de acordo com quatro estratos de
escolaridade do chefe da família, e 80 setores foram sorteados.
De posse da listagem de domicílios elegíveis (excluindo os desabitados
ou puramente comerciais), foram sorteados sistematicamente 20 domicílios de
cada setor para compor a amostra, chegando-se a um total de 1600 domicílios e
uma previsão inicial de 3360 pessoas elegíveis para a amostra.
Cálculos amostrais posteriores (por diferenças de
médias) demonstraram que a amostra obtida permitiu um poder estatístico igual
ou superior a 80% para todas as variáveis, com exceção do IMC, que exigiria uma
amostra muito superior, inviabilizando o estudo.
Após ampla revisão bibliográfica e contato com pesquisadores da área
não foi possível identificar um instrumento validado para avaliar conhecimento
sobre exercício físico. Sendo assim,
elaborou-se um questionário que foi testado em três situações de campo antes de
ser definitivamente aplicado. Esses testes serviram para aperfeiçoar o
instrumento, tornando-o mais adequado à compreensão da população estudada.
O objetivo deste questionário era identificar o conhecimento sobre:
benefícios do exercício físico, prejuízos do sedentarismo, limitações e
finalidades do exercício, e ainda avaliar a percepção sobre o assunto.
No Quadro 1 podem ser encontradas as
nove questões fechadas, de simples e múltipla escolha, com a respectiva
pontuação para elaboração do escore. As alternativas em destaque indicam as
respostas consideradas corretas. A primeira e a última questão não faziam parte
do escore, apenas da análise de percepção.
Algumas questões possuíam alternativas com pontuação crescente (por
exemplo, muito errado, errado, correto, mais correto e muito correto). As
questões possuíam pesos diferenciados. Esta ponderação foi necessária uma vez
que algumas apresentavam maior grau de dificuldade e/ou
tratavam de assuntos de maior relevância. O grau de dificuldade de algumas
questões pôde ser percebido durante os estudos-piloto. Todos os valores das
questões foram estabelecidos anteriormente à coleta de dados final e elaboração
do escore.
A partir dos dados do questionário
foi possível gerar dois conjuntos de informação – um escore de conhecimento e
uma descrição dos itens pesquisados. O escore foi obtido através das respostas,
e a pontuação total poderia variar entre 0 (zero) e 25 (vinte e cinco).
Respostas erradas não diminuíam a pontuação, apenas não acrescentavam pontos ao
escore.
Para o trabalho de campo, uma equipe de 40 entrevistadoras foi
utilizada após seleção, treinamento e testagem para a coleta dos dados do
consórcio. Os entrevistados consentiam verbalmente em participar da pesquisa
antes do início da entrevista.
As variáveis independentes estudadas
foram definidas da seguinte forma: Sexo
– masculino ou feminino; Idade
– coletada em anos completos; Cor da
pele – observada pela entrevistadora e classificada como branca ou
não-branca; Nível social –
dados coletados e classificados com base no questionário padronizado da Associação Nacional de Empresas de Pesquisa (ANEP,
2002). Nível A, B, C, D ou E; IMC (índice de massa corporal) – baseado no peso e altura referidos pelo entrevistado. A
classificação nutricional utilizada foi aquela recomentada
pela OMS (WHO, 1995): normal (IMC<25,0), Sobrepeso (25,0<IMC< 30,0)
e Obesidade (IMC³30,0); Prática de religião – declaração do entrevistado como
praticante ou não praticante; Escolaridade
– coletada em anos completos de estudo; Auto-percepção
de saúde – opinião do entrevistado - saúde, Excelente,
Muito boa, Boa, Regular ou Ruim; Situação conjugal
– sem companheiro [solteiro, separado, desquitado ou viúvo] ou com
companheiro [namorado, marido/esposa ou companheiro];
Tabagismo – fumante (1
ou + cigarros/dia, há mais de 1 mês), não-fumante
(nunca fumou) e ex-fumante e Atividade física – versão curta do IPAQ (IPAQ, 2002).
Todos os questionários foram inicialmente revisados pela própria
entrevistadora e, a seguir, pelo seu supervisor. Os dados foram digitados duas
vezes (EpiInfo 6.04b) a fim de identificar erros
de digitação. A análise de consistência e a análise estatística foram
realizadas utilizando-se o pacote
estatístico Stata 7.0 (StataCorp).
Os supervisores de trabalho de campo realizaram
uma revisita em 10% da amostra utilizando uma versão resumida do
questionário. Estes questionários de controle de qualidade foram usados para
cálculo de concordância (coeficiente kappa).
Inicialmente foi feita a descrição
da amostra e em seguida realizou-se uma análise bruta da variável desfecho
(escore de conhecimento) com as variáveis independentes. Devido às grandes
diferenças apresentadas entre os resultados entre homens e mulheres, toda
análise (descritiva, bruta e ajustada) foi realizada
para toda a amostra e separadamente para cada sexo.
Para a realização da análise
bivariada, o escore foi categorizado em quartis (0-14; 15-17; 18-20; 21-25). Os
quartis permaneceram em forma de valor absoluto, uma vez que até o momento não
existe referencial teórico amplamente aceito para categorizar o conhecimento.
Nesta fase (análise bruta) as variáveis que apresentaram valor de p
< 0,2 foram mantidas e levadas para análise ajustada enquanto que as demais
foram descartadas. Para as variáveis com mais de duas categorias foi realizado
teste para verificar a tendência linear, e para as de duas categorias o teste
de heterogeneidade de médias.
Durante a análise ajustada
(regressão linear múltipla) o escore foi tratado de forma contínua (0 – 25). Em todas as análises foi levado em conta o efeito
do desenho amostral para o desfecho (DEF = 3,6). Foi realizado diagnóstico do
modelo através de gráficos de resíduos e de resíduos padronizados com os
valores preditos.
RESULTADOS
Ao final da pesquisa, excluindo-se 5,6% de perdas e recusas, obteve-se
uma amostra total de 3182 pessoas.
O escore de conhecimento em toda população apresentou o
valor médio de 17,1 (desvio padrão = 4,0). Entre os homens, o valor foi de 16,7 (DP = 3,9) e entre as
mulheres 17,5 (DP = 4,1).
A Tabela 1 descreve as freqüências das variáveis referentes à percepção
do exercício físico para toda a amostra e, separadamente para homens e
mulheres. Pode ser observado que os homens referem saber mais em relação às
mulheres, no entanto elas responderam mais corretamente às questões em geral, e
ambos os sexos referem que gostariam de saber mais sobre o assunto.
A grande maioria da população reconhece a importância do exercício
físico, porém menos de 20% considera-o como sendo indispensável nos processos
de crescimento e envelhecimento saudáveis.
Mais da metade da população identifica que realizar exercício físico
por 30 minutos, três vezes por semana é o mínimo necessário para que os
benefícios sobre a saúde possam ser percebidos. Além disso, mais
de 50% da amostra considera a caminhada como um excelente exercício para
o emagrecimento.
Ainda nesta tabela pode ser observado algum desconhecimento, pois
persiste um certo preconceito quanto à possibilidade da prática de exercício
por populações com aparentes limitações, como pessoas idosas e/ou com certos problemas de saúde.
Chama a atenção que entre os cinco problemas mais citados como
alteráveis pelo exercício apareceram o estresse, a depressão, a ansiedade e a
insônia, enquanto outros problemas como colesterol alto, hipertensão e
osteoporose foram menos citados.
Os meios de comunicação foram a fonte de
informação sobre os benefícios do exercício físico mais freqüente, seguida pelo
médico e por parente ou amigo. Cabe salientar que mais de um quinto da amostra
refere que nunca recebeu este tipo de informação.
Na Tabela 2 pode-se observar a média e o desvio padrão do escore de
conhecimento sobre exercício físico, segundo as diversas variáveis
independentes, incluídas neste estudo. Além disso, são apresentados também os
valores dos escores categorizados por quartis de freqüência.
Considerando-se a amostra toda foram significativas as
associações entre as categorias do escore e sexo, idade, cor da pele, nível
social, escolaridade, tabagismo, IMC e autopercepção
de saúde.
A tabela 3 apresenta os resultados médios do escore por categoria e as
associações entre as categorias do escore e as variáveis independentes,
separadamente para homens e mulheres. Deve-se destacar que as associações
observadas mostraram-se diferentes entre os sexos. Para as mulheres todas as
associações, exceto IMC e tabagismo, apresentaram significância estatística. Já
para os homens apenas o nível social, a escolaridade, o tabagismo e o IMC
estiveram associados. Em relação à classificação quanto ao nível de atividade
física os homens apresentaram níveis ligeiramente mais altos de atividade,
embora esta diferença não seja estatisticamente significativa.
A Tabela 4 apresenta os resultados da regressão linear múltipla das
variáveis independentes sobre o conhecimento para a amostra total e
estratificada por sexo. Conforme a apresentação na tabela, as variáveis eram
ajustadas em relação às anteriores. Observando-se esta Tabela, no que se refere
à amostra total, apresentaram significância estatística o sexo, a idade, a cor
da pele, o nível social, a escolaridade, o nível de atividade física e o IMC.
Os coeficientes b indicam a magnitude da modificação
nos escores de conhecimento, em cada categoria das variáveis independentes,
usando como base a categoria com os piores escores. Entre os homens, a
associação com o desfecho (p < 0,05) ocorreu apenas para nível social,
escolaridade e IMC. Entre as mulheres o escore de conhecimento mostrou-se
significativamente associado com idade, nível social,
escolaridade, atividade física, cor da pele e situação conjugal.
O teste Kappa para a questão escolhida (fonte de informação sobre
exercício) mostrou um coeficiente de concordância igual a 0,4, que corresponde
a um nível moderado. Entretanto, deve-se levar em consideração que o tempo
decorrido entre a entrevista e a revisita apresentou mediana de 15 dias. A
pergunta escolhida poderia, em algumas ocasiões, gerar um viés, pois o
entrevistado poderia confundir todo o processo de entrevista com alguma espécie
de aconselhamento.
O diagnóstico através dos gráficos de resíduos (normal e padronizado)
mostrou que o modelo estava adequado, sem fuga da linearidade, apresentando
normalidade e homogeneidade de variância.
DISCUSSÃO
O conhecimento sobre exercício físico mostrou-se diferente entre homens
e mulheres. Também os fatores envolvidos na determinação de tal conhecimento
variaram entre os sexos, sendo que apenas escolaridade e nível social
apresentaram associações na mesma direção em ambos os sexos. Tais diferenças
talvez se expliquem por uma possível diferente visão que homens e mulheres
possam ter sobre exercício físico.
Considerou-se satisfatório o nível de informação da população sobre a
freqüência mínima necessária para que o exercício gere benefícios à saúde,
tendo em vista que mais da metade respondeu acertadamente que a partir de três
sessões semanais de 30 minutos os ganhos começam a surgir. Cabe destacar que um
número maior de sessões poderia gerar benefícios maiores, no entanto esta
avaliação visava identificar o conhecimento apenas em relação à quantidade
mínima de sessões. Esta alternativa do questionário seria a mais semelhante
quando comparada às recomendações internacionais (ACSM, 1998). Esta conclusão é
reforçada pelo fato de que menores prevalências foram encontradas nas
alternativas mais incorretas, fosse na freqüência semanal ou na duração da
sessão.
Com relação ao melhor exercício para o emagrecimento a partir das
alternativas apresentadas, a maior prevalência foi encontrada para caminhada,
concordando com as recomendações baseadas nos princípios de fisiologia do
exercício que consideram tal exercício um exemplo perfeito de exercício
aeróbico – tipo de exercício que mais possivelmente permitiria o consumo de
gordura corporal (HAWLEY, 1998; SPRIET, 2002). Nesta questão surgiu a maior
diferença encontrada entre homens e mulheres, uma vez que a quantidade de
homens que considera o futebol como o melhor exercício para o emagrecimento foi
quatro vezes maior.
Muitos ainda vinculam a possibilidade de realizar exercício físico a
características como pouca idade e saúde perfeita. Sabe-se hoje que justamente
os que mais se beneficiam do movimento com ganhos na qualidade de vida são as
pessoas que possuem limitações e/ou idades avançadas
(SBME & SBGG, 1999), no entanto mais de um terço da população ainda considera
que fatores como osteoporose, problemas cardíacos e ser idoso são barreiras que
impedem a prática de exercícios físicos.
Na análise da percepção, cabe destacar que entre os cinco problemas
mais citados pela população como possivelmente alteráveis pelo exercício, o
estresse apareceu em primeiro lugar, seguido dos problemas circulatórios e logo
após aparecem outros problemas considerados da esfera emocional, como depressão
e ansiedade, sendo que o quinto problema foi a
insônia.
Chama a atenção que, problemas de saúde tipicamente relacionados ao
sedentarismo, estavam entre aqueles menos identificados, dentre as opções das
doenças para as quais o exercício físico é classicamente considerado como um
fator de proteção. Apesar de toda divulgação do exercício como protetor contra
cardiopatias e outras doenças crônicas, os benefícios mais lembrados pelas
pessoas não são sobre os males puramente físicos, mais facilmente mensurados e
associados ao exercício. Talvez essa noção deva-se ao fato que independente de
diagnósticos médicos e exames laboratoriais, mesmo pessoas desinformadas
conseguem perceber alterações positivas no seu bem-estar advindas do exercício.
A facilidade de prescrição e a maior adesão aos tratamentos farmacológicos
também poderiam reforçar a noção de que problemas como hipertensão e
hipercolesterolemia pudessem ser tratados apenas com
medicação e dietas, o que poderia levar a população a considerar o
exercício como menos benéfico no combate a estas morbidades.
As baixas prevalências do
reconhecimento de que o exercício pode combater o diabetes,
além do que aproximadamente mais de um quarto da população não reconhece o
exercício como protetor contra osteoporose e hipertensão, foram achados
considerados negativos no presente estudo.
As diferentes redações das
questões que abordavam conceitos de causalidade, prevenção e combate de algumas
doenças também podem ter levado os entrevistados a respostas diferenciadas no
que diz respeito ao verdadeiro poder do exercício físico sobre os males
citados.
Comparativamente às mulheres, os homens recebem menos informação dos
médicos e mais de professores, o que poderia ser explicado pela maior
freqüência das mulheres em consultórios médicos (DA COSTA & FACCHINI,
1997). Por outro lado, os homens de maneira geral, mantém
uma relação mais freqüente com professores e treinadores de esportes coletivos.
Contudo, os números extremos são preocupantes, uma vez que quase um quarto dos
homens ou um quinto das mulheres referem nunca ter recebido informação sobre os
benefícios do exercício físico.
TWGACTRG (2001) mostrou que mulheres são mais suscetíveis ao
aconselhamento, e que intervenções no sentido de diminuir o sedentarismo
possuem um maior impacto sobre elas quando comparadas aos homens.
No presente estudo as mulheres, mesmo possuindo mais conhecimento, não
se mostraram mais ativas do que os homens, o que não anula a importância do
conhecimento. A maioria dos estudos populacionais
utiliza questionários para avaliar os níveis de atividade física, o que para
populações é o mais viável. Entretanto, estes inquéritos raramente conseguem
medir com fidedignidade satisfatória os níveis de exercício físico. A atividade
física por si só, não implica necessariamente, em ganhos no
condicionamento físico como, por exemplo, maior consumo de oxigênio e melhor
saúde cardiovascular, que junto a outras condições, levam à menor
morbi-mortalidade por qualquer causa.
Uma limitação de delineamentos do tipo transversal, que
pode ter ocorrido no presente estudo é a causalidade reversa,
que pode dificultar a determinação temporal da relação entre causa e
efeito. Ou seja, se o conhecimento precedeu a prática de atividade física ou
ele é conseqüência desta. Outra limitação particular deste estudo é o fato de
que o instrumento foi criado e aplicado pela primeira vez em uma população.
Outro aspecto reside na elaboração do escore, que, embora baseado em literatura
atual, era formado por valores arbitrários atribuídos pelo criador do
questionário.
No presente estudo os
fatores mais envolvidos na determinação do conhecimento foram o nível social e
o grau de escolaridade, uma vez que estas variáveis apresentaram forte
associação em todos os grupos e, com tendência linear. A compreensão desta
relação fica clara considerando que o conhecimento sobre exercício físico é
parte do conhecimento geral, e que este está vinculado às condições sociais da
população.
Mulheres possuem um maior esclarecimento sobre o exercício físico,
mesmo assim não apresentaram, neste estudo, maiores níveis de atividade física.
Independente de sexo, existe uma forte associação entre este conhecimento e o
nível social e a escolaridade.
As diferenças encontradas entre os resultados de homens e mulheres e
níveis sociais, bem como diferenças entre grupos etários, devem ser levadas em
conta no planejamento de programas abrangentes de incentivo ao exercício
físico.
A criação de locais públicos destinados ao exercício, juntamente com
programas locais de divulgação sobre atividade física, pode ser uma ferramenta
efetiva no combate ao sedentarismo principalmente, se focalizar esforços nestes
dois campos – aconselhamento médico a toda população e ações no âmbito escolar
para o incentivo e esclarecimento sobre este tema, mais precocemente. Tais
estratégias poderiam possibilitar que, após intervenções, fossem feitas
reavaliações para determinar o real impacto destas políticas sobre o
comportamento da população.
Futuros estudos que avaliem as questões compreendidas pela relação
entre exercício físico e saúde poderão colaborar para a diminuição dos níveis
de sedentarismo em qualquer população. Além disso, a utilização de subamostras da população, que permitissem um estudo
individual e mais detalhado sobre o condicionamento físico, poderia explicar
melhor a relação entre conhecimento e prática de exercício físico.
AGRADECIMENTOS
Esta pesquisa teve
incentivo financeiro da CAPES.
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Tabela 1. Distribuição
das variáveis referentes à percepção e
conhecimento do exercício físico para toda a amostra e, separadamente, para
homens e mulheres. (N = 3182) Pelotas, 2002.
|
V A R I Á V E L |
PREVALÊNCIAS (%) |
||
|
Auto-percepção do conhecimento sobre exercício físico
Sabe o suficiente
Gostaria de aprender mais
Não acha necessário saber essas coisas
Não tem nenhum conhecimento |
todos |
homens |
mulheres |
|
20,6 60,8 5,6 12,0 |
25,9 57,6 5,1 10,7 |
16,6 63,2 6,0 13,0 |
|
|
Importância do exercício no crescimento/envelhecimento
Sem importância
Pouco importante
Muito importante
Indispensável |
0,6 2,1 77,2 19,2 |
0,7 2,0 74,8 21,8 |
0,6 2,1 79,0 17,3 |
|
Freqüência mínima de exercício para obtenção de saúde 10
minutos, 4 vezes por semana 2 horas
por dia, todos os dias 30
minutos, 3 vezes por semana 1 hora,
1 vez por semana |
10,9 16,9 57,7 11,7 |
11,4 20,0 55,9 10,4 |
10,4 14,6 59,1 17,7 |
|
Melhor exercício para o emagrecimento
Futebol
Tênis
Hidroginástica
Caminhada
Ginástica localizada |
12,0 1,6 13,8 54,4 16,4 |
20,8 2,1 15,1 46,3 14,5 |
5,4 1,1 12,9 60,6 17,8 |
|
Quem pode executar exercício
físico Uma criança com menos de 10 anos Uma mulher no início da gravidez Um idoso com mais de 90 anos Uma pessoa com osteoporose e problemas
cardíacos |
84.8 81.0 66.4 59.8 |
83,2 81,4 67,4 56,2 |
85,9 80,7 65,7 62,6 |
|
Identificação do exercício como protetor contra doenças
Estresse
Depressão
Ansiedade
Insônia Colesterol alto
Hipertensão
Câncer de pele
Osteoporose |
93,6 87,7 87,3 81,6 75,4 71,9 17,1 71,0 |
93,3 87,0 86,1 80,7 73,6 70,9 19,8 66,4 |
93,8 88,2 88,3 82,3 76,7 72,7 15,0 74,4 |
|
Identificação do sedentarismo como fator de risco Problemas de circulação Diarréia Meningite Diabetes |
91,8 10,5 11,7 42,8 |
91,3 13,5 13,7 42,4 |
92,1 8,2 10,2 43,0 |
|
Fonte de informação sobre
benefícios da atividade física Meio de comunicação Médico Parente ou amigo Professor Nunca recebeu informação |
51,2 51,1 49,7 19.1 21,0 |
49,3 44,6 48,4 24,0 23,6 |
52,6 56,0 50,7 15,3 18,8 |
|
O máximo de não respondentes ou que não souberam responder alguma
questão foi de 3,2% |
|||
Tabela 2. Distribuição das variáveis demográficas,
socioeconômicas, comportamentais, antropométricas e
sobre a auto-percepção de saúde na amostra total,
segundo as categorias (quartis) de escores de conhecimento sobre exercício. Pelotas,
2002 (N = 3182)
|
VARIÁVEL |
% |
X (± DP) |
0 - 14 |
15 - 17 |
18 - 20 |
21 - 25 |
p |
Sexo
Masculino Feminino |
43,2 56,8 |
16,7 (3,9) 17,5 (4,1) |
% 26,1 19,5 |