Observação: todo material de capacidades motoras foi compilado pelo Prof. Francisco José Pereira Tavares durante a disciplina de Ginástica 2 da ESEF – UFPEL - 1998

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DAS CAPACIDADES MOTORAS

O movimento humano, abrangendo desde o recorde mundial em algum esporte até a realização de um simples ato cotidiano, tem sido objeto de estudo em várias áreas científicas. Tenta-se determinar as bases e os componentes do movimento, o que nos permitirá, ao identificá-los, desenvolvê-los da melhor forma possível. Objetivos dessa natureza são buscados mediante classificações, organizações, conceituações etc, fundamentadas na experiência.

Existem formas muito variadas de classificações em relação às capacidades motoras (também denominadas capacidades físicas, qualidades físicas, qualidades motoras, etc.), com diferenças notáveis entre elas, como pode ser visto no quadro 1.

Não existe, até hoje, uma esquematização uniforme ou mesmo definições homogêneas em relação às capacidades motoras ou solicitações motoras. Certas áreas precisariam ser definidas com melhor exatidão para um melhor entendimento entre os profissionais da área. Para uma melhor aplicação prática, os conceitos, segundo BARBANTI (1996), deveriam ser definidos do ponto de vista da Medicina Esportiva, uma vez que desta forma é possível uma clara definição dos conceitos, baseados nos fundamentos morfológico-funcionais, distinção esta que falta às definições sob o ponto de vista metodológico-filosófico.

Na área de Educação Física e dos Esportes, "capacidade" refere-se mais às qualidades inatas de uma pessoa, como um talento, um potencial. Exemplos de capacidade seriam a força, a resistência, a flexibilidade, etc.; enquanto "habilidade" refere-se à coisas aprendidas, desenvolvidas, como a habilidade para jogar futebol, handebol, basquetebol, tênis, etc.. As capacidades são elementos essenciais para o rendimento motor.

As capacidades são determinadas geneticamente, isto é, toda pessoa nasce com uma certa quantidade de força, resistência, flexibilidade, por exemplo, mas ninguém nasce com habilidade para jogar futebol, handebol ou basquetebol. Isto tem que ser aprendido, desenvolvido. Portanto, a habilidade motora no caso, é uma forma de movimento específico, dependente da experiência deste movimento que foi automatizado com a repetição. Magill (1989) define a habilidade motora como sendo um "ato ou tarefa que requer movimento e deve ser aprendido a fim de ser executado corretamente". Uma técnica esportiva é uma habilidade motora. Para Singer (1977), uma habilidade é um ato específico, um movimento predeterminado". Ela é desenvolvida através da prática e depende de capacidades subjacentes.

Nos últimos anos numerosos estudos procuraram determinar bases científicas para as várias classificações. Um estudioso alemão propôs a expressão "Capacidades Motoras" para substituir a usada universalmente "Qualidades Físicas", visto que este termo "qualidade" já indica um valor elevado em qualquer âmbito. O termo "capacidade" indica uma medida em potencial e por isso tem um valor amplamente modelável ou treinável. A procura da melhor forma de desenvolvimento das capacidades, ou seja do melhor treinamento, levou os investigadores das capacidades a olharem de uma forma cada vez mais atenta e sistemática para lago que está por detrás do movimento.

Quando vemos um movimento, observamos mudanças de posição no espaço e no tempo, que foram produzidas pela aplicação de forças. Mas não vemos nem força nem velocidade, o que observamos é o aspecto exterior do movimento. A busca do entendimento do que está por detrás do movimento tem sido fundamentada na fisiologia do exercício, e o treinamento físico tem avançado, sobretudo, nesta área do conhecimento.

A denominação "Capacidades Motoras" tem sido introduzida gradativamente na terminologia da Ciência do Esporte e a maior parte dos países já faz uso dela para definir os pressupostos necessários para a execução e aprendizagem das ações motoras.

Para que qualquer movimento seja executado com êxito, temos que pressupor a existência de um certo número de capacidades baseadas em predisposições genéticas e que se desenvolvem pelo treino. Não são qualidades do movimento, mas pressupostos para que elas existam. O termo "física", que é bastante genérico e problemático foi substituído pelo termo "motora", para reportar-se ao movimento. A expressão "Capacidades Motoras" substitui então "Qualidades Físicas", passando a ser a expressão mais correta e precisa na terminologia internacional para definir os pressupostos dos movimentos, desde os mais simples aos mais complexos. Para que qualquer atividade motora possa ser executada com êxito necessita-se das capacidades motoras, e no esporte e desenvolvimento do rendimento está intimamente ligado ao desenvolvimento das diferentes capacidades motoras. Em 1968, Gundlach (quadro 1) propôs uma classificação que as divide em dois grupos fundamentais: as Capacidades Motoras Condicionais e as Capacidades Motoras Coordenativas.

As Capacidades Condicionais são fundamentadas na eficiência do metabolismo energético. Elas são determinadas pelos processos que conduzem à obtenção e transformação de energia, isto é, os processos metabólicos nos músculos e sistemas orgânicos. Elas são basicamente três: A Capacidade de Força, a Capacidade de Resistência e a Capacidade de Velocidade.

A Flexibilidade também é classificada como uma capacidade condicional, mas isto é motivo de discussão.

O mesmo acontece com a Velocidade, que é classificada como Capacidade Motora Condicional, mas que também depende dos processos do sistema nervoso central, portanto, para alguns autores, ela seria uma capacidade intermediária entre a Condicional e a Coordenativa.

As Capacidades Coordenativas são capacidades determinadas essencialmente por componentes onde predominam os processos de condução nervosa (Hirtz & Shielke apud BARBANTI, 1996), isto é, elas possuem a capacidade de organizar e regular o movimento, constituindo-se portanto na base para o aprendizado, a execução e domínio dos gestos técnicos. Aquilo que se denomina "Técnica" no Esporte apoia-se e é determinado preponderantemente pela capacidades coordenativas. Foram propostas nove capacidades coordenativas, cada uma delas com uma determinada importância prática (quadro 2):

a) capacidade de diferenciação sensorial; b) capacidade de observação; c) capacidade de representação; d) capacidade de antecipação; e) capacidade de ritmo; f) capacidade de coordenação motora; g) capacidade de controle motor; h) capacidade de reação motora; i) capacidade de expressão motora.

Até recentemente, a Teoria do Treinamento usava o termo Destreza para designar a capacidade de executar movimentos complexos que exigiam alto grau de coordenação, este termo, embora utilizado universalmente, dificilmente identificava a enorme multiplicidade das ações motoras, tanto no Esporte como nas outras áreas de atividade física.

Com inúmeras investigações científicas sobre o tema, evidenciou-se a necessidade de uma caracterização que diferenciada para facilitar o diagnóstico e o aperfeiçoamento dessas capacidades, tão imprescindíveis na formação do jovem esportista. Então o termo "Destreza" foi substituído por "Capacidades Coordenativas", entendidas como pressupostos necessários para a condução, regulação e execução do movimento. Elas permitem às pessoas identificar a posição do próprio corpo ou parte dele em relação ao espaço, ou ainda executar corretamente a sincronização dos movimentos de forma mais precisa e econômica. As Capacidades Coordenativas se fundamentam na elaboração da informação e no controle da execução que são desenvolvidas pelos analisadores táteis, que informam sobre a pressão nas diferentes partes do corpo; pelos analisadores visuais, que recolhem a imagem do mundo exterior; pelos analisadores estático-dinâmicos, que informam sobre a aceleração do corpo, particularmente a posição da cabeça, concorrendo desta forma para a conservação do equilíbrio; pelos analisadores acústicos, por onde percebemos os sons e os ruídos; e pelos analisadores cinestésicos, por meio dos quais recebemos informações sobre as tensões produzidas pelos músculos.

Para vários autores, a informação visual é mais importante na fase inicial da aprendizagem de um movimento. Logo após vem a informação acústica e verbal, para depois, quando se atinge a fase de automatização, ter maior importância o analisador cinestésico, onde o movimento pode ser "sentido".

 

IMPORTÂNCIA DAS CAPACIDADES COORDENATIVAS

1.Possibilita um repertório motor mais amplo, mais rico e variado.

2.Abrevia o tempo gasto na aprendizagem de um movimento novo, tornando mais eficaz seu aperfeiçoamento.

3.Quanto mais elevado o nível das capacidades coordenativas, mais depressa e mais seguramente são aprendidos movimentos novos e difíceis.

4.Permite a execução de movimentos idênticos com menor gasto energético, possibilitando portanto uma economia de energia.

5.Permite maior adaptação e readaptação dos movimentos quando há modificações do ambiente ou de situações.

 

CLASSIFICAÇÃO DAS CAPACIDADES COORDENATIVAS

Dentre as várias classificações conhecidas, a mais aceita é a de Pohlmann e cols.(1982) citado por BARBANTI (1996). Deve-se esclarecer que as capacidades coordenativas não são hierarquicamente superiores umas às outras. Apenas serão referidas em ordem crescente.

 

1. Capacidade de Diferenciação Sensorial

É a capacidade de diferenciar as sensações extraídas dos objetos e dos processos através dos nossos órgãos dos sentidos, face a necessidade específica de uma atividade.

Quanto mais elevado e específico for o rendimento de um atleta, tanto mais diferenciadas devem ser as informações recolhidas pelos receptores. A qualidade da informação sensorial determina a qualidade da execução técnica, porque colabora com o controle e a regulação da ação motora.

 

2. Capacidade de Observação

Capacidade de perceber o desenvolvimento de um movimento próprio ou de outros, assim como os objetos imóveis, com base em critérios selecionados. Por causa do papel dominante das informações visuais na maioria dos esportes de equipe, esta capacidade é de grande importância. Ela é ainda decisiva na fase de aquisição no processo de aprendizagem do movimento, onde predominam as informações.

 

3. Capacidade de Representação

É a capacidade de mentalizar situações bem determinadas, processos de movimentos, objetos etc, com base nas informações disponíveis. Uma ação motora consciente e com um objetivo determinado pressupões sempre uma imagem do que se quer e como se quer fazer o movimento. É uma espécie de "projeto motor da ação" tentando reproduzir os valores ideais do movimento.

 

4. Capacidade de Antecipação

É a capacidade de prever o desenvolvimento e o resultado de uma ação motora ou de uma situação e, a partir desta, preparar a próxima ação. Ela garante segurança na solução de problemas motores. Porém, deve ser ressaltado que nem sempre uma capacidade de antecipação conduz a um comportamento motor adequado. Uma antecipação precipitada ou um retardo na antecipação podem conduzir a erros, como acontece por exemplo quando um jogador recebe uma finta. A capacidade de antecipação é particularmente importante quando existe a realização de movimentos velozes e as habilidades são do tipo "abertas", ou seja, imprevisíveis, como acontece nos esportes coletivos ou nos esportes de luta (judô, karatê, etc.).

5. Capacidade de Ritmo

Capacidade de articular o desenvolvimento de um movimento e de agrupar o desenvolvimento temporal e dinâmico que caracteriza o movimento. É também a capacidade de dar sustentação rítmica à ações motoras, isto é, organizar compromissos musculares de contração e descontração. Ainda faz parte desta capacidade saber adaptar-se a um ritmo estabelecido ou previamente mudado. O ritmo tem influência na emoção e na motivação. "Dar o ritmo" ou "marcar o tempo" serve como uma espécie de guia para o desenrolar do movimento.

6. Capacidade de Coordenação Motora

Capacidade de assegurar uma adequada combinação de movimentos que se desenvolvem ao mesmo tempo ou em sucessão. Ela permite ligar habilidades motoras como corrida e salto, impulso e lançamento, e nos movimentos de membros superiores e inferiores, como na natação, no saltos e etc. Permite que os movimentos sejam sincronizados e ajustados entre eles; suas ligações se fazem de maneira mais fluente.

 

7. Capacidade de Controle Motor

Capacidade de poder responder às exigências elevadas de precisão de movimentos do ponto de vista espacial, temporal e dinâmico. Ela é necessária para aprender ou realizar habilidades que requerem elevadas exigências de precisão motora. A capacidade de controle motor está fortemente ligada à capacidade de equilíbrio. Em muitos esportes estão prevista exigências de precisão espacial, temporal e dinâmica em seus regulamentos de competição.

 

8. Capacidade de Reação Motora

Capacidade de reagir rápida e corretamente a determinados estímulos. Pode se distinguir a reação simples, a reação complexa e a reação de escolha. Ela é importante nos esportes onde o tempo entre o estímulo e a resposta motora deve ser o menor possível, como no tiro de partida. A reação motora complexa refere-se à situação exigida em toda sua complexidade. Além de uma reação rápida é ainda necessária uma resposta relativamente exata. Nas reações de escolha é importante o componente cognitivo da decisão. A reação rápida está associada a uma escolha apropriada entre várias possibilidades alternativas.

9. Capacidade de Expressão Motora

É a capacidade de criar os próprios movimentos segundo as leis da estética, do belo, criando uma expressão artística e provocando uma expressão estética. Em esportes como a ginástica olímpica, a GRD, a natação sincronizada, a patinação artística, a aeróbica de competição, o resultado do rendimento é, em parte, diretamente avaliado através do caráter de novidade de seus exercícios ou segundo os aspectos da harmonia do seu ritmo. É muito importante na dança, onde existem os elementos motores de comunicação.

 

IMPORTÂNCIA DO DESENVOLVIMENTO DAS CAPACIDADES COORDENATIVAS

Embora as capacidades coordenativas possam ser desenvolvidas ao longo de toda a vida, existe um período ótimo onde se verifica seu maior desenvolvimento.

Hirtz e Schielke (1986) consideram o período entre os 7 e os 10 anos como uma fase onde as possibilidades de desenvolvimento das capacidades coordenativas fundamentais se mostram mais favoráveis, É com base na motricidade ampla adquirida nesta fase que se processa a execução das ações motoras mais maduras ao longo da vida. Isto acentua a importância de se adquirir e estabilizar uma grande variedade de experiências motoras, sobretudo durante a idade escolar, particularmente nas quatro primeiras séries do primeiro grau.

Durante este período verifica-se uma rápida maturação do SNC, facilitanto a aprendizagem de habilidades motoras cada vez mais complexas. Há um consenso entre a maioria dos autores de que a faixa de idade entre os 10-12 anos é período de melhor capacidade de aprendizagem da técnica esportiva, mas isto pressupõe que nos anos anteriores tenha sido fornecida à criança uma variedade de experiências motoras. A aprendizagem e o aperfeiçoamento da técnicas esportivas será tanto mais rápida e eficiente quanto mais desenvolvidas estiverem as diferentes capacidades coordenativas.

Em especial os profissionais que trabalham nas chamadas "Escolas de Esportes", principalmente as de futebol, basquetebol, tênis, atletismo, etc., deveriam incluir entre as suas atividades, além das técnicas específicas de sua modalidade, exercícios que promovessem o desenvolvimento das capacidades coordenativas.

 

O DESENVOLVIMENTO DAS CAPACIDADES MOTORAS

Quando se procura desenvolver uma das nossas capacidades motoras, todas as outras são influenciadas.

A grandeza dessa influência depende de 2 fatores: a característica da sobrecarga utilizada e o nível de treinamento físico. Nas pessoa com baixos níveis de preparação física, os exercícios para o desenvolvimento de uma capacidade específica terão atuação nas demais.

O desenvolvimento de uma capacidade motora específica nos estágios iniciais do treinamento levará ao aperfeiçoamento de outras. Contudo, mais tarde, este paralelismo cessa, em razão de sua dissociação. Com isto, os exercícios que antes desenvolviam todas as capacidades motoras, agora só afetarão algumas delas. Um pouco mais tarde, com mais treinamento físico, poderão aparecer relações negativas entre algumas das capacidade motoras.

É preciso considerar o fato de que o maior grau de desenvolvimento de uma capacidade motora específica (força, resistência, velocidade, etc.0 pode somente ser alcançado se as outras forem também desenvolvidas a um certo nível. Por isso, o desenvolvimento de todas as capacidades motoras deve ser harmonioso.

 

CLASSIFICAÇÃO DAS HABILIDADES MOTORAS

As habilidades podem ser classificadas em categorias gerais, dando oportunidade para a identificação de elementos comuns existentes entre elas.

Magill (1989) apresenta 4 sistemas de classificação baseados em:

1. precisão do movimento;

2. caráter bem definido dos pontos iniciais e finais;

3. estabilidade do ambiente;

4. controle por feedback.

Quanto à precisão dos movimentos, as habilidades são classificadas em:

Globais - envolvem, como base principal do movimento, grande musculatura e não requerem grande precisão. Exemplo: andar, saltar, arremessar.

Finais - relacionadas com o controle de pequenos músculos do corpo, geralmente envolvem coordenação óculo-manual e requerem alto grau de precisão de movimentos. Exemplo: escrever, desenhar, tocar piano.

Quanto aos pontos iniciais e finai bem definidos, as habilidade podem ser consideradas:

Discretas - existem pontos distintos de início e fim. Exemplos: arremessar uma bola, datilografar.

Contínuas - não tem pontos distintos de início e fim. Exemplo: dirigir um carro.

 

As discretas podem ser combinadas em séries (serial). Exemplo: arremesso no handebol; bandeja no basquete.

Quanto à estabilidade do ambiente em que a habilidade é executada, ela pode ser:

Fechada - a habilidade é executada em um ambiente estável (previsível).

As condições são fixas. Exemplo: arco e flecha, golfe, boliche.

Aberta ou variável - a habilidade é executada em um ambiente instável (imprevisível) e em mudança contínua. Exemplo: jogos de equipe.

Quanto ao controle de feedback, este baseia-se em como e quando o retorno da informação sensorial é usado no controle ou na produção do movimento. A habilidade é classificada como de circuito fechado, se a informação pode ser utilizada para ajustar a ação durante o próprio movimento. Exemplo: saque no tênis. De circuito aberto, se a informação não pode ser usada para fazer ajustes no movimento durante sua própria ação, mas somente na estratégia da próxima tentativa. Exemplo: tacada no beisebol.

Existem certas relações entre as capacidades e as habilidades motoras (Manno, 1984):

 

BARBANTI, V. J. Treinamento Físico: bases científicas. 3 ed. São Paulo: CLR Balieiro, 1996.