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Arte Virtual. O que isto quer dizer? Virtual é um termo que em nosso vocabulário pode significar tanto alguma coisa que existe como faculdade, porém sem exercício ou efeito atual quanto alguma coisa potencialmente suscetível de se realizar, é o que nos diz o dicionário. Na filosofia o termo é utilizado para se referir àquilo que está predeterminado a acontecer e que para tanto tem todas as condições para a sua realização tal qual a borboleta em estado virtual na lagarta. Na arte temos feito uso desse vocábulo para nos referirmos às criações operadas através de recursos computacionais, sem distinção quanto à origem e as formas de concepção dessas criações, sejam elas operações feitas através da captura de imagens pré-existentes, sejam elas criações integralmente numéricas, ou seja, objetos construídos a partir de uma matriz de números, algoritmos ou programas. A discussão sobre esse assunto é por demais complexa e aqui não caberia ser feita. Assim, vamos utilizando a denominação de arte virtual para nos referirmos a um tipo de criação que utiliza os recursos fornecidos pela informática e que difere das formas de produção artesanais mais conhecidas das artes como a pintura, o desenho, a gravura e a escultura – embora com elas possa interagir.
Independente de um consenso semântico é possível dizer que com as possibilidades trazidas pela informática a arte avança mais um estágio no seu projeto de conquistar sua independência e romper com a função social histórica de representar a realidade porque a arte produzida em / com computadores, icônica ou não, é sempre uma abstração. Lúcia Santaela diz - referindo-se a imagens produzidas em / no computador - que “Pouco importa que ela seja figurativa, realista, surrealista ou abstrata. O que preside a formação dessas imagens é sempre uma abstração, a abstração de cálculos matemáticos, e não o real empírico”.
A arte é sempre um fenômeno difícil de se definir e não seria diferente nesse momento de convivência com a informática. Assim tem sido há muito tempo. Pierre Levy (1996) diz que isso ocorre porque ela está quase sempre na fronteira da simples linguagem expressiva, da técnica ordinária (o artesanato) ou da função social muito claramente designável, mas que ela (a arte) fascina porque põe em prática a mais virtualizante das atividades. Talvez este seja um caminho profícuo para se desenvolver uma reflexão. Levy enunciou isso ao elaborar um conjunto de reflexões sobre o fenômeno da informatização da sociedade. Fenômeno este complexo e que hoje nos envolve com muitos braços e que até pouco tempo era repertório de ficção científica: cyber-espaço, redes interplanetárias, simulações.
O comentário de Levy traz implícito um entendimento de virtual: a capacidade de produzir realidades, embora nem sempre palpáveis, uma característica da arte em todos os tempos – realidades que se instalam a partir da interação entre os sujeitos e os objetos de arte: realidades virtuais. Assim temos que arte é uma energia virtualizante que não se sustenta no objeto material em si, nem na oposição ao real. As possibilidades trazidas pela informática à arte renovam condições à própria arte de ludibriar conceitos e teorias engessadoras, críticos e instituições repressoras que insistem em se manter presas a visões tradicionalistas.
Massimo Canevacci, italiano, um dos mais inquietos antropólogos da atualidade diz que as novas mídias estão gerando uma contínua transformação da identidade do eu do artista e de cada comunicador porque não tem mais o eu singular, o parado, o unificado e, sim, a possibilidade de multiplicação dos eus e que isto poderá levar a sociedade e a arte a um conceito mais líquido que não permite classificações – sempre ordenadoras e massificadoras – e que poderá ainda nos levar a uma metodologia da diferença que liberte os códigos artísticos contidos nos textos artísticos.
Se isto assim vai ocorrer só o tempo dirá, mas nós que sabemos o quanto já avançamos na arte no que tange a sua autonomia e liberdade temos a consciência de que esta é apenas mais uma etapa e que só ocorre agora como conseqüência das ações contínuas dos artistas em outros tempos, em especial dos artistas que construíram a modernidade. Se incorporamos ao nosso vocabulário a palavra virtual, sem a profundidade que ela exige isto ainda pode ser corrigido. A virtualidade de hoje, que diz respeito tanto a imagens sintéticas ou infográficas não é sinônimo da virtualidade enunciada por Levy, mas ambas concorrem para um mesmo fim, qual seja, de continuar produzindo arte, esta sim sempre virtual e virtualizante como a potencial borboleta contida na lagarta que, se tiver seu curso preservado poderá definitivamente alcançar outras formas e outros vôos.
Teresa Lenzi Professora do Departamento de Letras e Artes Da Fundação Universidade Federal do Rio Grande. Mestre em Poéticas Visuais / UFRGS.
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