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Tradição ou tradicionalismo?
Carlos Sider

     Confesso que jamais tinha parado para pensar na tamanha diferença que há entre as duas coisas. Fui desperto para essa realidade por João Alexandre, quando ele mencionou a seguinte frase para mim:
"Tradição é a fé viva dos mortos. Tradicionalismo é a fé morta dos vivos."
     Fiquei intrigado. Não porque discordasse do que ele falou. O que mais me incomodou foi que a família na qual nasci e fui criado sempre teve o tradicionalismo como fio de prumo. Ou seria a tradição? Ou ambos?
     Fui atrás. Busquei saber o significado de cada uma das coisas. E pensei bastante. Eu o convido a acompanhar-me em minhas conclusões.
     Tradição é ter o conhecimento do que foi feito no passado: do que deu errado e do que deu certo; e guardar isso em local seguro, sempre ao alcance da memória. É utilizar esse conhecimento em seu próprio favor. Deus ensina a tradição. Deus mandou o povo hebreu ensinar as leis aos filhos e aos filhos de seus filhos. Mais ainda: mandou que o povo fizesse memoriais que registrassem às futuras gerações os fatos marcantes. Foi assim quando atravessaram o Jordão, que se abriu para que passassem a seco. Deus mandou que um homem de cada tribo recolhesse uma pedra do fundo, para que, com as 12 pedras resultantes, o povo construísse um memorial, um monumento. Para quê? Para quando os filhos perguntassem: "Pai, que significa esse monte de pedras?", o pai pudesse contar a história do que Deus fez e como o fez.
     Mas aí chega o tradicionalismo. A raiz da palavra já diz o que ele é. Culto à tradição. Obediência cega à tradição.
     Aproveitando o clima atualmente reinante do filme A paixão de Cristo, de Mel Gibson, pense em algumas passagens, não do filme necessariamente, mas da vida de Jesus relatada nos evangelhos:
• a tradição (as Leis) de Israel falava e apontava para a vinda de um Messias (Jesus). O tradicionalismo impediu que Jesus fosse reconhecido como o Messias pelos judeus;
• a tradição transmitida de pai para filho em Israel fazia com que guardassem festas, datas, sábados etc. e etc. O tradicionalismo os fez tão seguros de si que esqueceram de pensar! Esqueceram do porquê das festas, das datas e do guardar o sábado.
Bastou Jesus curar um homem no sábado que o tradicionalismo gritou;
• o tradicionalismo fez com que os judeus tivessem lá seus partidos: os fariseus, os saduceus... a seriedade com que guardavam e repetiam os costumes e tradições os fez esquecer de quem eram e de quem era Deus, para limitar-se a uma mecânica repetição de ritos. O tradicionalismo faz parar de pensar;
     Tradição faz bem. Tradição é sinônimo de experiência. Não só a sua, mas a dos seus ancestrais e de seus contemporâneos.
     Mas tradição sem cérebro ligado não vale nada. A tradição ensina o que deu certo e o que deu errado. E para entendê-la, temos de buscar contextos. Para aplicá-la a nós, temos de traçar paralelos, avaliar se é pertinente ou não. Temos de pensar. Temos de orar. Temos de depender de Deus, apesar da tradição.
     Tradicionalismo é colocar a tradição acima de nosso intelecto, acima da oração, acima de Deus. Tradicionalismo é cultuar a tradição. Portanto, tradicionalismo é uma espécie de idolatria.
     Estamos cheios de exemplos nos quais vivemos na gangorra entre a tradição e o tradicionalismo. Quer ver?
     A tradição permite que observemos a fé dos nossos antepassados relatada em hinos. O tradicionalismo diz que esses hinos são mais "santos" que as músicas de hoje, que também relatam a fé de nossos dias. A fé de cristãos, de épocas distintas, no mesmo Deus! Como pode uma ser mais santa que a outra?
     A tradição relata o comportamento de nossos antepassados, a forma como se vestiam, a forma como agiam. O tradicionalismo manda repetir tudo hoje, da mesma forma, mesmo que possa estar fora de contexto. Mesmo que signifique ir à praia de terno.
     A tradição reforça a Bíblia. Dá exemplos de como nossos antepassados a viviam e a aplicavam, como também mostra como não faziam, e as conseqüências de suas atitudes. O tradicionalismo manda repetir tudo o que eles faziam, sem olhar para a Bíblia. Afinal, questionar o que os "santos antepassados" faziam é sacrilégio, mesmo que fosse errado. Outro dia mesmo, estava lendo a história de uma das mais tradicionais igrejas brasileiras. Fiquei abismado com o que vi por lá. Certos pastores que essa igreja teve no começo do século, mencionados nos anais da denominação como "ilustres ícones da fé cristã, excelentes pregadores", foram simplesmente exonerados de seu pastorado por conduta imoral, adultério e até incesto! Mesmo que a tradição possa nos revelar tais fatos, o tradicionalismo os esconde.
     Cheguei enfim às minhas conclusões. Concordo com a frase citada pelo João. "Tradição é a fé viva dos mortos. Tradicionalismo é a fé morta dos vivos." Uma fé viva busca aprender com a mesma fé viva dos antepassados. Embora já não estejam entre nós, a tradição nos permite conhecer sua fé. Já o tradicionalismo nasce de uma fé morta, que busca na observância impensada de ritos e costumes a suposta religiosidade que lhe apazigúe a alma. Puro farisaísmo moderno.
     E quanto a minha família? Era tradição ou tradicionalismo? Os dois. Creio que, se pensarmos bem, todos nós temos momentos em que pegamos o lado bom da tradição, mas, por vezes, paramos de pensar e vamos para o lado ruim, o do tradicionalismo.
     Mas garimpei mais uma convicção: tradição é boa; o tradicionalismo é burrice, idolatria e pecado.
 

 

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