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Analfabetismo cristão
Mark Carpenter

     Entre os muitos paradoxos que caracterizam o Brasil, há mais este: a indústria editorial brasileira de livros cristãos é uma das maiores do mundo, mas está disputando um universo cada vez menor de leitores.
     De acordo com o colunista Daniel Piza, do Estado de São Paulo, vivemos num país que cultiva e valoriza a ignorância, e menospreza o conhecimento e a cultura. Antigamente até os que não liam livros compravam uma coleção de enciclopédias Barsa para disfarçar sua incultura. Hoje não há sequer a preocupação em dar a impressão de ser instruído ou sábio. A coleção da Barsa deu lugar à coleção de CDs. A estante de livros saiu para dar lugar ao home theater.
As livrarias cristãs espelham essa realidade. Hoje a maioria vive da venda de CDs, estojos de Santa Ceia, marca-páginas (que acabam não marcando página nenhuma), camisetas, stickers, adesivos para carros, chaveiros, porta-Bíblias, cartões de felicitações, toalhinhas e gravatas. Os poucos livros em estoque são normalmente envoltos em plástico museológico e colocados nas estantes mais modestas, nos fundos das livrarias, visitadas apenas pelos eventuais seminaristas, nerds evangélicos ou leitores que ainda valorizam a leitura. Questionados sobre esse mix de mercadoria, os livreiros fazem coro: “o público não quer livro!”
     Nada tenho contra a indústria de música cristã, nem contra o setor de bugiganga evangélica. Eu mesmo tenho vários CDs evangélicos, minha esposa usa um colar com cruz de prata e vez por outra as crianças vestem camisetas com motivos cristãos. Afinal, é natural querer fazer parte de uma tribo. Quando essa “tribo” é a noiva de Cristo, melhor ainda.
     No entanto, uma camiseta com a efígie de Cristo nunca substituirá a leitura dos Evangelhos. As roupagens do evangelho pouco têm a ver com a sua mensagem. E quando investimos em “forma” em detrimento de “conteúdo”, colocamos em risco a nossa própria integridade.
     Tenho no meu escritório um belo livro de fotografias do cubano Abelardo Morell. As fotos são de livros, complementadas por citações sobre leitura e literatura. Minha fotografia preferida mostra um livro danificado, esquecido na chuva e coberto de lama seca; parece ter sido atropelado por uma carroça. A única página visível sob a sujeira apresenta alguns parágrafos dispersos. A imagem deixa claro que a existência desse objeto semi-orgânico só faz sentido quando aflui para a leitura. É a provocação da interação intelectual que lhe dá sentido.
     Dizem que o pior analfabeto é aquele que sabe ler mas não deseja ler. Para a tristeza das editoras e a infelicidade da igreja no Brasil, nossas comunidades cristãs estão cheias desses piores dos analfabetos. Boa parte das igrejas sofre dos males dos abusos ideológicos, das falsas profecias, das doutrinas errôneas e das expectativas equivocadas. A congregação que não lê nem a Bíblia nem livros cristãos não está preparada para exigir nada melhor.
     Como chegamos a esta situação? Uns culpam os produtores de quinquilharias e os seus pontos de distribuição. É claro que a profusão dessas mercadorias estimula o seu consumo. No entanto, essa indústria está simplesmente produzindo para a demanda extraordinária que existe para tais produtos. Ou seja, é a superficialidade da população consumidora que gera a profusão de produtos superficiais. Pôr a culpa nas lojas não resolve. O que precisa mudar é o desejo do consumidor.
     Como seria um Brasil em que cada cristão tivesse sede de crescimento espiritual, anseio pela verdade e desejo de ler para aprofundar os seus horizontes espirituais? A procura por literatura séria que seria gerada por tal demanda criaria uma das indústrias editoriais mais férteis do mundo, até pela dimensão da população cristã do país. Se este Brasil ainda não existe, é este que temos de criar, não para que as editoras cresçam, mas para que a população evangélica — munida de bons recursos editoriais e de subsídios intelectuais — transforme a sociedade e o mundo. É esta a dimensão da nossa tarefa, que começa com a produção de bons livros, mas que passa necessariamente pelo estímulo à leitura priorizado pelos líderes e educadores cristãos.

Mark Carpenter é diretor executivo da Editora Mundo Cristão e recebeu o prêmio ABEC 2004 “Personalidade Literária”

 

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