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Deus é inocente!
Ed René Kivitz
"Se o céu existe, Deus tem muito o que explicar". Essa
afirmação do ator Robert DeNiro quando questionado se acreditava
na vida após a morte, faz eco em meu coração.
Também experimento o incômodo de deixar Deus sub judice
diante do sofrimento humano. Não me conformo diante das
injustiças da vida. O argumento de que todos somos maus e, em
última análise, ninguém mereceria ser poupado do mal, não me
satisfaz.
Acredito que coisas ruins acontecem às pessoas boas e
acalento, silencioso, uma certa contrariedade quando coisas boas
acontecem aos ruins.
E também creio que a maioria das pessoas não merece a
tragédia que sofre - o casal que perde o filho recém-nascido; o
adolescente que fica tetraplégico após um mergulho displicente;
a mulher que se vê mutilada pelo câncer; o pai de família que
percorre as ruas na indignidade do desemprego. São situações
cotidianas que me fazem dormir mal sob o peso do veredicto: Deus
tem mesmo muito que explicar.
Mas trago no coração uma certeza que apazigua a alma,
dá coragem para viver e me anima à solidariedade, ainda que
tímida e pouco suficiente: o céu existe.
Não sei como é, nem onde fica. Não sei quando acontece.
Mas que existe, existe. O presente estado das coisas não é a
versão final da obra de Deus.
Uma coisa é o mundo em que vivemos; outra, aquele em
que viveremos eternamente. E a respeito das coisas que acontecem
neste mundo e não deveriam acontecer, mas que não acontecerão no
mundo vindouro, Deus já Se explicou.
O Pai Se pronunciou em alto e bom som, há mais de 2 mil
anos, na cruz do Calvário, onde foi morto Jesus de Nazaré, o
Cristo, unigênito de Deus.
A tradição cristã afirma que "Deus prova seu amor para
conosco pelo fato de Cristo ter morrido em nosso favor, sendo
nós ainda pecadores" (Rm 5.8).
Quem duvida do amor de Deus deve olhar para o Calvário.
No dia em que o sofrimento se agiganta e a visão do amor de Deus
fica ofuscada pelas lágrimas da dor. A cruz é o grito apaixonado
de Deus. O teólogo britânico John Stott disse que, na cruz de
Cristo, Deus justifica não apenas a humanidade, mas a Si mesmo.
Na cruz de Cristo, Deus Se levanta diante de todos os
que O acusam de ser injusto, tirano, indiferente ao sofrimento e
à dor humanas, e pronuncia a sentença de inocência sobre Si
mesmo. O madeiro é a prova irrefutável do amor de Deus.
Na cruz de Cristo, Deus se solidariza com as vítimas do
mal e da malignidade. Através da morte de Jesus Cristo, seu
Filho, Deus afirma: "O mal também me feriu"; "O sofrimento
chegou também à minha casa"; "As lágrimas pelo padecimento
injusto também rolam dos meus olhos".
Aqueles que imaginam que o Deus que habita em luz
inacessível vive confortavelmente no ar condicionado do céu,
enquanto Suas criaturas penam contra o diabo e seus asseclas na
terra do sol, estão absolutamente enganados.
Na cruz de Cristo, Deus sofre conosco. Sofre por nós.
Padece em nosso lugar. Deus sabe o que é padecer - seu Filho é
homem de dores, ovelha muda entre seus sanguinários
tosquiadores. Na cruz de Cristo Deus atravessou não apenas o
vale da sombra da morte; atravessou a própria morte.
Na cruz de Cristo, Deus é declarado inocente porque não
é contado entre os promotores do mal, mas entre os que sofrem os
danos da malignidade.
Na cruz de Cristo, Deus afirma: "Não olhem para mim
como se eu ordenasse o mal"; "Quando estiver sofrendo, não me
conte entre os que lhe causam a dor".
Quase posso escutar o Senhor dizendo à mãe que chora a
filha atropelada: "Não me tome como quem passou por cima. Eu
estava embaixo, sendo esmagado sob o peso da roda que me
dilacerava a carne e a alma".
Na cruz de Cristo, Deus sofre o mal. Ali, o Senhor é
exposto como vítima, e não como algoz que causa dor e
sofrimento.
Na cruz de Cristo, os verdadeiros promotores da morte
são publicamente desmascarados. Cai o pano. E todo mundo pode
ver que Deus não está com mãos sujas de sangue inocente - na
cruz de Cristo, Deus é a mão inocente que sangra.
No episódio do Calvário, o Pai é declarado inocente
porque fica evidente que a causa do sofrimento é o pecado da
raça humana.
Os pecadores pendem das cruzes laterais; mas a do meio sustém um
inocente.
Na cruz de Cristo, Deus afirma: "Vocês deflagraram o
mal, soltaram a besta fera. Vocês macularam o Paraíso". O aviso
"No dia em que pecares, certamente morrerás" ainda ecoa pelo
universo.
A presença da morte é evidência de pecado; e o pecado é
responsabilidade da raça. A cruz de Cristo somente se explica
porque o pecado a faz necessária. Naquele dia em que Deus
provava Seu amor para conosco, éramos de fato ainda pecadores.
Na cruz, Deus é O que morre, e não O que mata. Na cruz
de Cristo, pende o justo morrendo a morte dos injustos. O
veredicto está lançado - há pecado; pois que haja morte. O
salário do pecado é a morte, disse o apóstolo. A justiça do Deus
três vezes santo há que ser satisfeita. Deus está diante de Seu
dilema eterno: matar ou morrer. E sua opção é definitiva, desde
antes da criação do mundo - morrer.
Deus faz a escolha e anuncia sua disposição de amor
absoluto: se alguém tem que morrer para que a justiça volte a
brilhar, que viva a raça humana. "E que morra eu", diz o Senhor.
O primeiro dos dilemas é criar ou não criar. O segundo
é criar com liberdade ou sem liberdade. O terceiro é assumir o
ônus da liberdade ou deixar este ônus nas mãos da criatura.
Deus faz as escolhas que O machucam, que lhe causam
dor, que o fazem sofrer, que o diminuem.
O Senhor escolhe criar um ser livre, pois se não fosse
livre não seria à imagem do Criador. E escolhe arcar com ônus da
liberdade que concede à Sua criatura. Na cruz de Cristo está
Deus entregando a Sua vida, voluntariamente, em favor dos
pecadores.
O mal deflagrado pela raça humana levanta sua sombra
sobre o trono de Deus. E o próprio Deus Se levanta como um
Cordeiro que a Si mesmo se doa para o sacrifício, pois sua
escolha foi morrer, ao invés de matar.
Na cruz de Cristo está o Deus que morre para que todos
tenham vida. Vida completa, abundante vida.
Ed René Kivitz - Pastor da Igreja Batista de Água Branca em São
Paulo. É autor de diversos livros, entre eles "Vivendo com
propósitos" Ed. Mundo Cristão.
Texto extraído da revista Eclésia
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