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Uma Túnica a Cada Ano!
O Crescimento da Igreja e o Caminho da Fidelidade
Waldir Steurnagel
Gostaria apenas de abordar umas poucas coisas que
parecem fundamentais neste momento. São coisas que brotaram
diante dos meus olhos ao meditar na história bíblica de Samuel e
sua mãe.
É importante cumprir as promessas
Os episódios da vida dessa amada e pobre mulher chamada
Ana – a mãe de Samuel – são conhecidos. Cansada e amargurada em
função da sua esterilidade, ela enfim decide derramar a sua alma
perante Deus. A oração que ela faz constitui um dos mais
comoventes exercícios de transparência que a Bíblia registra. A
intensidade da sua oração se transforma num voto: “E fez um
voto, dizendo: Senhor dos Exércitos, se benignamente atentares
para a aflição da tua serva, e de mim te lembrares, e da tua
serva te não esqueceres, e lhe deres um filho varão, ao Senhor o
darei por todos os dias da sua vida,...”(1 Sm 1.11).
Sabemos que Deus se lembrou dela e a sua alegria foi
imensa e indescritível. Ela ria, pulava e cantava como há tempo
não se via! Como uma grávida orgulhosa, ela não queria esconder
a sua barriga. E assim, grávida, ela se sentia acalentada por
Deus.
Mas o dia do parto chegou e o período de amamentação se
transformou num misto de riso e lágrima. Ana sabia que, quando
esse período terminasse, ela tinha um voto a cumprir. Um ato de
obediência a realizar. Foi assim que ela começou a arrumar a
mala de Samuel e a prepará-lo para uma mudança fundamental de
vida. E quando reencontrou o velho profeta Eli ela disse: “Pelo
que também o trago como devolvido ao Senhor por todos os dias
que viver; pois do Senhor o pedi”. E diz o relato que “eles
adoraram ali ao Senhor” (1 Sm 1.28).
Ana foi uma mulher que cumpriu o seu voto. Não apenas
devolveu ao Senhor o que dele tinha recebido, mas presenteou o
povo de Deus com o seu filho Samuel, que viria a ser um dos
líderes chaves no processo de solidificação da história do povo
de Israel.
É importante sermos conhecidos como um povo que sabe cumprir os
seus votos. Que devolve a Deus o que dele recebe e enriquece o
outro com a bênção recebida por Deus. A tentação que nos cerca
nesta hora, contudo, não caminha nessa direção. Ela nos leva a
ver na bênção uma graça egoísta. Um favor particular. Até um
objeto de consumo. Assim a bênção de Deus passa a ser um produto
de consumo particular e religioso. É contra essa tentação que
Ana nos adverte e nos pede que lembremos o seu exemplo de vida,
por mais que os seus olhos estivessem marejados de lágrimas ao
despedir-se do seu Samuel.
Exercer fidelidade cotidiana
É claro que Ana não se esqueceu de Samuel. Pode,
afinal, uma mãe esquecer-se de seu filho? À medida que se
aproximava o tempo de ir ver Samuel, o que ela fazia anualmente,
Ana parecia se transformar. Ela se tornava uma pessoa expansiva
e “avoada”. Elcana, seu marido, só faltava entrar em desespero
e, perturbado, murmurava: “Vá entender essa mulher!”
Um dos rituais inegociáveis nesse período que antecedia
a subida ao templo e a visita ao filho era o tempo que Ana
passava costurando. Pois era ali que ela não apenas costurava
uma nova muda de roupa para o seu Samuel, mas colocava naquela
peça um pedaço do seu amor. O texto diz assim: “Sua mãe lhe
fazia uma túnica pequena, e de ano em ano lha trazia, quando com
seu marido subia a oferecer o sacrifício anual”(1 Sm 2.19).
Aquela era, pois, uma túnica muito especial, tanto para
Samuel como para Ana. Para ela, porque colocava no processo da
costura da túnica um pedaço de si, e o fazê-la lhe dava um
sentimento de participação na missão de Deus e na vocação de
Samuel. E este olhava para a túnica, sorria e sabia-se amado e
doado pela sua mãe; e vestir a túnica atenuava um pouco da
saudade que ele sentia dela dia após dia.
Mas tudo isso por causa de uma túnica, que afinal nem
aparece muito?! Mas era uma túnica a cada ano – e é isso eu
quero destacar. Aquela túnica se constituía um passo de
fidelidade e um gesto de continuidade. E isso é muito
importante: que a nossa igreja e nós, povo de Deus, caminhemos
na direção da continuidade fiel. Nas pequenas coisas. Ano após
ano.
A tentação que nos acompanha é a da experiência
grandiloqüente e do resultado imediato. Nós gostamos e queremos
experiências fortes e conseqüências imediatas. Coisas para o
consumo instantâneo. Assim queremos viver a nossa vida cristã e
essa imagem damos à igreja.
O que o exemplo de Ana nos mostra, no entanto, é a
importância das pequenas coisas que se enraízam no ritmo da
nossa vida: uma túnica a cada ano... mas a cada ano uma túnica.
Viver a fé cristã com fidelidade é fundamental para a saúde da
igreja. Algo assim como Ana e Samuel.
Buscar intimidade com Deus
E assim Samuel ia crescendo e a sua túnica encurtando.
Até que no ano seguinte ele ganhava uma roupa nova e, sorrindo,
abraçava a sua mãe, com a nova túnica entre os braços.
Mas a vida de Samuel não se resumia a vestir e tirar
túnicas. Sua vida era muito mais intensa que isso: diz o texto
que ele “servia ao Senhor” (1 Sm 3.1). E, à medida que ele
crescia, se intensificava a sua intimidade com Deus (1 Sm 3.19),
num período em que “a palavra do Senhor era mui rara; as visões
não eram freqüentes” (1Sm 3.1).
A imagem que o texto bíblico nos transmite é a de uma
época em que o temor a Deus não estava na agenda das pessoas.
Samuel, no entanto, crescia na intimidade com Deus e no serviço
a Ele, em meio a esse deserto da Palavra e esse cerco de
infidelidade a Deus.
E assim são os nossos dias. Marcados pela desobediência
a Deus e por um caos vivencial. O crescimento do individualismo
e da violência parece apontar para o risco da desintegração
social. E a igreja precisa clamar para que Deus não nos abandone
com o seu silêncio.
Se a igreja quiser ter uma presença de impacto nessa
sociedade, ela precisa vivenciar o caminho da intimidade com
Deus e do serviço a Ele no mundo. Samuel continua a nos mostrar
o caminho, numa longa vida de fidelidade a Deus e serviço ao seu
povo. Em obediência ele viveu os seus anos, conclamou para uma
vida na presença de Deus e para a construção de uma sociedade
que expressasse a glória de Deus e a qual Deus queria
continuamente enriquecer com a sua palavra.
Será que é essa a marca que transmitimos à nossa
sociedade e que deixaremos à geração futura?
Pr. Waldir Steurnagel - IECLB
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