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Quando não há pedras suficientes
José Kleber Fernandes Calixto
Gênesis 16:1-14; 21:8-21
Uma das cenas mais comoventes do filme "Contador de
Histórias" (Forrest Gump), foi quando Jenny, a namorada de
Forest, voltou depois de longos anos envolvida no submundo de
drogas e os dois passaram pela casa onde ela foi criada... se é
que se pode dizer que ela foi criada. Porque ela sofreu todo
tipo de violência nas mãos do pai. Quando ela vê o barraco,
agora já adulta, fica totalmente abalada e todas as lembranças
da infância horrorosa voltam à mente. Ela abaixa e pega uma
pedra e a joga, com todas as forças, na direção da casa. Ela
acerta uma janela que se desfaz em mil pedaços. Depois ela pega
outra, e depois outra... Ela joga todas as pedras perto dela e
depois cai no chão chorando. Forrest disse a ela: "Às vezes não
há pedras suficientes". Creio eu que ele quis dizer que às vezes o
sofrimento é tanto, que nada há que podemos fazer para aliviá-lo
- que nem a vingança, nem toda nossa raiva resolvem a dor.
Concordo. Quando sofremos, estamos magoados, nós
queremos jogar todas as pedras do mundo contra "aquele barraco"
onde sofremos. Pode ser uma pessoa, uma coisa, uma memória, mas
como no caso de Jenny, nunca há pedra suficiente para derrubar o
barraco do sofrimento. De fato, o único resultado do esforço de
jogar pedras, é que caímos no chão chorando. Tem que haver uma
outra solução...
Há uma mulher na Bíblia que não encontrou pedra
suficiente para sua dor. Ela não tinha pedra nenhuma em suas
mãos, mas se tivesse teria jogado milhares! Como é a história?
Essa mulher fascinante, se chamava Agar. Nós a encontramos pela
primeira vez no livro de Gênesis, capítulo 16. Agar não era
israelita, e nem era cananéia. Ela era egípcia e estava morando
muito longe da sua terra. Até seu nome traduzia a sua triste
realidade, pois Agar significava - fugitiva ou imigrante. Ela
era uma mulher longe do seu povo e país, servindo a uma
estrangeira, Sarai. Certamente Agar foi adquirida durante sua
viagem ao Egito. Não sabemos se ela foi dada ou comprada, mas de
qualquer forma ela era uma escrava.
Sarai, como qualquer mulher hebréia sem filhos, não se
sentindo realizada entregou Agar para Abraão para que por meio
dela pudesse dar-lhe um filho. O filho que nascesse, seria
contado como o filho dela. Agar não ganharia nada em troca por
sua participação nesse esquema. Ela dormiria com o marido da
patroa, ficaria grávida, daria a luz a um filho e não teria
direito sobre nada. Nem seu próprio corpo, nem a vida do filho.
Se esta história tem uma vítima, é Agar. Ninguém jamais
perguntou: -Agar, você gostaria de ter um filho com Abrão? Abrão
nunca teve um relacionamento com Agar. Ele apenas possuiu o
corpo de Agar. Isso é uma violência. Por sorte dela, ela
engravidou. Finalmente nasceu o sol para ela. Ela tinha alguma
coisa que sua dona não tinha. Ela conseguiu o que Sarai, com
toda sua beleza não havia conseguido. Acho sua reação era mais
que natural. Ela, no fim de contas, “estava com rei na barriga”.
Ela era superior à dona estéril. Era uma forma de jogar pedras
no barraco do sofrimento. A senhora Sarai não tem filho, mas
Agar tem. Ela, de repente, virou gente, pelo menos na sua
cabeça. E diante das ordens de sua senhora, Agar ganha coragem
para dizer pela primeira vez: "- Faça você mesma!".
Isto foi o suficiente para Sarai, morrendo de ciúmes,
inveja e raiva, reclamar de Agar ao seu marido. E ter sua
autorização, para se vingar de sua Serva. E segundo o verso 6
ela a humilhou-a “segundo o costume pôs uma marca horrível de
vergonha sobre o seu corpo”. Agar, desesperada, foge - começou a
correr na direção do Egito (Sur é referência as fortificações
fronteiriças do Egito). Como qualquer mulher em apuros, ela
procurou a casa dos pais.
Passados 15 anos Agar, enche novamente as mãos de
pedras diante da injustiça praticada por Sarai, ou Sara, a
partir de então. Por causa de uma brincadeira maldosa de
adolescente, Sarah exige que Abraão expulse Agar e seu filho.
Novamente Agar é marcada por Sara. Agora com a marca da morte.
Ela estava marcada para morrer no deserto.
Ali, ela olha para a direita – só areia; para a
esquerda - mais areia. Para frente, para trás, ao norte, ao sul,
em todas as direções, nada mais que areia. De tantos anos de
serviço não sobrara nada além de um mundo de areia e um sol
escaldante. Não há nuvem no céu, não há nada. Só o céu, o sol, a
areia, uma mulher, e um adolescente deitados, com o rosto e os
lábios queimados e inchados pelo sol. Ismael, seu filho, está
gemendo porque ele está morrendo de sede. E a única coisa que
Agar pode fazer foi se afastar dele para não testemunhar a sua
triste morte.
Se ela tivesse lágrimas, ela choraria, mas não tinha
como derramar uma lágrima. Ela também está ressecada. Debaixo do
sol tão cruel, ela tem um coração queimado, queimando de ódio.
Ela olha para um pequeno odre que está vazio e sente desespero
total. Ela não sabe o que fazer para salvar sua vida, nem a vida
do filho. Ela está no deserto com um odre vazio e um filho
morrendo de sede por causa de uma injustiça tremenda. Para essa
mulher não há pedra suficiente para derrubar a casa do
sofrimento.
Mas o que fazer quando nós estamos nesta situação?
Desesperados, destruídos por dentro diante da injustiça
praticada conosco e a única vontade que nós temos é de encher as
nossas mãos de pedras e jogar nos algozes da nossa esperança?
1. Para que pegar pedras se eu tenho um Deus vivo que me vê?
Diz o verso 14 do capitulo 16, que lá no deserto, Agar,
depois de ser assistida pelo Senhor na sua dor, impressionada,
pela forma maravilhosa como Deus agira em seu drama, chamou
Deus de Laai-Roi,que quer dizer: “aquele que vive e vê”. Não
importava mais se Abraão não via as injustiças, se Sara não via as
suas próprias atitudes erradas para com ela, não importava se
ninguém mais a via na sua dor. havia alguém que a via e a ouvia
(significado de Ismael).
2. Para que atirar pedras se Deus transforma minhas perdas em
ganho?
Deus tirou as pedras das mãos de Agar quando ele a
mostrou que Ele é o Deus que transforma as nossas perdas em
ganho. As derrotas em triunfo. As humilhações em honra. Agar é a
primeira e uma das únicas mulheres da Bíblia, a conversar
diretamente com Deus e receber uma promessa dele. Qual outra
mulher teve intimidade suficiente para dar um nome a Deus? Agar
também recebeu uma promessa. Sarai não recebeu uma promessa.
Sarai não conversou com Deus. Deus ouviu uma mulher imigrante,
fugitiva, escrava, sofredora. Ela perdeu uma família e ganhou um
povo (16:10; 17:20). Saiu com um pequeno odre e ganhou uma fonte
de água (21:19).
3. Para que atirar pedras se Deus está presente em todos os
momentos de nossa vida?
Quando lemos os versículos 17-19, mais uma vez vemos
Deus agindo para tirar as pedras da mão de Agar. O que Deus fez: A
primeira coisa que Deus faz é conversar com ela. E Ele faz uma
simples pergunta: o que está acontecendo? É óbvio que Ele sabe.
Mas ela precisa parar e pensar. Ela precisa lembrar como isso é
parecido com o que já acontecera antes. As cenas não eram apenas
coincidências eram reincidências divinas. Deus cuidou dela no
passado, ele cuidará dela agora também. Através dessa conversa,
Deus está dizendo: “Estou aqui - estou presente. Eu estava com
você no início há 15 anos quando pela primeira vez você
atravessou esse deserto e estou com você agora”. Pode ser que
você também se sinta como num deserto, que está sozinho, mas
pode ter certeza que Deus virá a você e perguntará: “O que há de
errado? Eu estou aqui.” E com esta promessa, quem precisa de
qualquer pedra na mão?
4. Para que atirar pedras se Deus tem nos dado uma missão em
nossas mãos?
Interessante notar como Deus restabelece a vida de Agar
para os trilhos da esperança. Ele tira as pedras e coloca o
filho em suas mãos. Porque, sem perceber, em seu desespero e
ódio, Agar tinha abandonado seu filho. Na primeira dificuldade
abandonara a sua patroa, agora, abandonara o seu próprio filho.
Agar era afeita a fugir das dificuldades (ver 16: 6,8). Pegar
pedras sempre é mais fácil do que olharmos para a nossa
responsabilidade. As pedras não são solução, são uma fuga. Não
podemos abandonar tudo, e esquecer-nos do mundo a nossa volta
quando estamos sofrendo. Deus não nos dá licença para curtirmos
nossa dor e esquecer-nos das nossas responsabilidades. Mas Deus
manda Agar tirar seus olhos do próprio sofrimento e cuidar do
filho.
5. Para que atirar pedras se Deus já tem suprido a vitória?
Agar tem ao seu filho Ismael para salvar, e o odre está
vazio. Será que Deus encheu o odre? Deus falou “abracadabra” e
apareceu a água? Não! Ele abriu os olhos de Agar. O problema de
Agar não era o odre vazio. Sempre houve água ali perto dela. O
poço já estava naquele lugar. Mas Ela estava cega. Cega de
amargura, cega de desespero, cega de ódio. Não conseguia ver
outra coisa, a não ser pedras para jogar em Sara e Abraão.
Muitas vezes tudo que precisamos está bem perto de nós, mas não
conseguimos ver a bênção, o milagre a solução dos problemas,
porque as lagrimas do desespero, o choro do ressentimento não
nos deixa ver aquilo Deus fez por nós. Ele simplesmente
ajudou Agar a ver o que tinha ao seu redor. A raiva, o ódio, a
mágoa e o desespero cegaram os olhos da mulher.
Quem sabe você não está como Agar. Sem rumo, sem
promessa, abandonado, e com as mãos cheias de pedras. Mas eu
gostaria de desafiá-lo a deixar Deus tirar essas pedras das
suas mãos para que você possa provar do seu amor e da sua água
viva. Não há pedra suficiente neste mundo para aliviar sua
dor. Mas ele nos disse: "Vinde a mim, todos os que estais
cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei" (Mt 11.28). Agora, com
suas pedras no chão, use-as para construir um altar. Encontre o
Deus
verdadeiro, receba seu conforto e diga, como Agar: "Eu vi o Deus
que me vê!"
Creia nisto!
José Kleber Fernandes Calixto - Igr. Presbiteriana Coromandel -
MG
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