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Se eu fosse mais velho...
Ricardo Gondim Rodrigues
Não estou com pressa de envelhecer. Meu pai padece há
anos de uma doença que lhe deixou senil e caquético. A velhice
me intimida. Sei que na terceira idade não só perderei a
impetuosidade típica dos jovens, como me tornarei mais
vulnerável às doenças degenerativas. Mesmo assim espero pelos
meus dias de ancião, porque só os velhos podem dizer coisas
proibidas aos jovens. Estou ansioso para que chegue o tempo de
poder dizê-las.
Se eu fosse mais velho...
Eu diria aos mais jovens que desistam do sonho de
galgarem a fama em nome de Deus. Contaria que já presenciei o
desespero de alguns, almejando se destacarem como referenciais
de sua geração para depois descerem do trem fatigados e
destruídos pelo ônus da fama. Descreveria os bastidores da
algumas “grandes” agências evangelísticas e de outras
para-eclesiásticas e como me enojei com a petulância de alguns
evangelistas famosos. Falaria de minhas lágrimas, quando um
deles afirmou que passaria por cima de qualquer pessoa desde que
conseguisse estabelecer o que chamou de “reino de Deus”.
Incentivaria os jovens a buscarem uma vida discreta sem o
glamour do mundo, que preferissem a senda do Calvário. Pediria
que optassem por beber o cálice do Senhor a desejarem os loiros
da glória humana.
Se eu fosse mais velho...
Eu diria aos mais jovens que ambicionam subir os
degraus denominacionais, que eles perigam chegar no topo sem
alma. Narraria os conchavos da política eclesiástica como
ridículos e fúteis. Candidamente, contaria casos de traição,
logro e delação nas reuniões secretas de algumas cúpulas
religiosas. Pediria para fugirem da ganância pela autoridade
institucional. Ensinaria a desejarem autoridade espiritual, que
não vem de negociatas, mas de uma vida piedosa e íntima com
Deus.
Se eu fosse mais velho...
Diria aos mais jovens que não se iludissem com o
academicismo. Eu lhes revelaria como alguns acadêmicos usam da
sua erudição para se esconderem de Deus. Não teria medo de
mostrar que muita bibliografia citada em rodapés, vem da uma
vaidade boba. Algumas pessoas buscam se mostrar mais cultas do
que na verdade são. Diria que certos eruditos são pessoas
insuportáveis no contacto pessoal e que eles também padecem dos
mesmos males que todos nós: intolerância, indiferença e muita,
muita soberba. Contudo, eu lhes pediria para serem amigos dos
livros. Pediria que lessem muito e diversificadamente; que
usassem o conselho de Tiago na busca da sabedoria: “Quem dentre
vós é sábio e entendido? Mostre em mansidão de sabedoria,
mediante condigno proceder, as suas obras. A Sabedoria, porém,
lá do alto, é primeiramente pura; depois pacífica, indulgente,
tratável, plena de misericórdia e de bons frutos, imparcial, sem
fingimento”. (Tg 3.13,17).
Se eu fosse mais velho...
Eu diria aos mais jovens que tomassem muito cuidado
para não gastarem todas as suas energias nos primeiros anos de
ministério. Exortaria, ilustrando o serviço a Deus como uma
maratona e que não adianta se apressar nos primeiros anos.
Relataria os exemplos de tantos que se arrebentaram antes da
linha de chegada. Quantos pastores destruíram suas famílias e
filhos no afã de serem úteis e produtivos! Quando chegaram os
anos da meia idade, já se encontravam estressados e cansados!
Falaria daquele dia em que o meu semblante descaiu ao ouvir um
pastor dizer que só não saía do ministério porque, já muito
velho, não sabia como retornar ao mercado de trabalho. Pediria
que não perdessem a oportunidade de passear com os filhos no
parque, de lerem livros que não fossem úteis ao ministério, de
curtirem a sua mulher e de praticarem algum esporte. Eu lhes
pregaria um sermão baseado em Mateus 16.26 e explicaria que,
para Jesus, perder a alma tem um sentido mais amplo do que
simplesmente morrer e ir para o inferno. Basearia minha mensagem
na afirmação de que é possível, pastor ou evangelista, ganhar o
mundo inteiro e acabar perdendo os afetos do cônjuge, os
sentimentos dos filhos e dos amigos, a auto-estima, o sorriso, a
capacidade de amar poesia e de cantar canções de ninar. Enfim,
perder a alma!
Se eu fosse mais velho...
Eu diria aos mais jovens que não desejassem o
espalhafato espiritual e as demonstrações exuberantes do poder
carismático. Revelaria que alguns desses evangelistas
americanos, que muitos acreditam super ungidos, passam a tarde
na piscina do hotel em que se hospedam, antes de encenarem a sua
super espiritualidade em mega eventos. Não temeria denunciar
alguns que se trancam nos seus aposentos, assistindo filmes na
televisão e logo depois subirem às plataformas com o ar de
santos da última hora. Não hesitaria alardear, que muito daquilo
que se rotula como demonstração de poder espiritual, nasce de
uma mentalidade que busca levar as pessoas a uma falsa euforia
religiosa.
Se eu fosse mais velho...
Eu diria aos mais jovens que a sexualidade é terreno
minado e cheio de armadilhas. Contaria tantos exemplos de
ministérios que ruíram pela sensualidade. Alertaria que o grande
perigo do sexo não vem da beleza, mas da solidão e do poder.
Tantos pastores naufragaram em adultério porque se sentiram sós.
Não possuíam amigos verdadeiros. Viviam rodeados de assessores,
sem um amigo com quem pudessem abrir o coração e pedir ajuda.
Incentivaria a desenvolverem amizades, preferivelmente fora de
seus quintais denominacionais. Suplicaria que fizessem amigos
com coragem de falar coisas duras, olhando nos olhos. Lembraria
que são fiéis as feridas feitas por aquele que ama.
Se eu fosse mais velho...
Eu diria aos mais jovens que tomassem cuidado com os
modismos teológicos, ventos de doutrina e novidades
eclesiásticas. Falaria das inúmeras ondas que varreram as
igrejas com pretensas visitações de Deus. Vermelho de vergonha,
lembraria aquele culto em que se alardeou que Deus estava
trocando as obturações por ouro. As pessoas se sujeitando ao
ridículo de investigarem a boca uns dos outros e depois, ao
confundirem as restaurações amareladas de material de baixa
qualidade, com ouro, saírem proclamando um milagre de Deus.
Relataria a pobreza doutrinária daqueles que jogaram os
evangélicos na paranóia da guerra espiritual. Ensinaram as
mulheres a vigiarem mais durante a menstruação, porque há
demônios que se alimentam daquele tipo de sangue. Imploraria que
se mantivessem fiéis ao leito principal do Evangelho, à Doutrina
dos Apóstolos; que não deixassem de pregar a Cruz do Calvário.
Se eu fosse mais velho...
Eu diria aos jovens para não procurarem imitar ninguém.
Lamentaria a tentativa patética de alguns líderes de quererem
ser clones de pastores e evangelistas de renome. Mostraria
vários exemplos ridículos de igrejas que tentaram reproduzir no
sofrido Brasil, o modelo de igrejas abastadas dos subúrbios
americanos. Admoestaria que soubessem aceitar-se. Pediria para
não ficarem procurando repetir gestos, neologismos, tom de voz e
maneirismos dos outros, pois acabarão sem identidade. Eu
mostraria na Bíblia que Deus não nos cobrará por não ensinarmos
com a destreza de Paulo, nos portarmos com a ousadia de Pedro,
ou escrevermos com o mesmo amor de João. Deus nos pedirá contas
apenas por não termos vivido nossa própria identidade.
Se eu fosse mais velho...
Diria aos jovens que a obra que Deus tem para fazer em
nós é muito maior que aquela que ele tem para fazer através de
nós. Diria que somos preciosos como filhos e não como servos.
Melancolicamente falaria que na velhice, muitos sentem saudade
dos tempos que poderiam ter sido íntimos de Deus, mas acabaram
chafurdados nos pântanos de sua própria vaidade. Diria que na
velhice muitos choram por saberem que o tempo da partida está
próximo e não escolheram a melhor parte, como fez Maria.
Eu deveria esperar para dizer essas coisas quando
estivesse mais velho. Por impetuosidade acabei dizendo antes do
tempo. Contudo, acredito que não me arrependerei de tê-las dito
agora.
Soli Deo Gloria
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