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Mantendo a vela acesa
Ricardo Barbosa de Sousa
Alguns meses atrás, nosso liquidificador, relativamente
novo, apareceu com um barulho estranho e logo parou de
funcionar. Tratava-se de um liquidificador simples, destes que
servem apenas para fazer sucos e bater coisas mais leves, não
era dos mais modernos, sofisticados, com inúmeras funções. Era
um aparelho barato. Fui até uma oficina que conserta
eletrodomésticos e o entreguei para o técnico fazer um
orçamento. Poucos minutos mais tarde, o rapaz voltou e me deu o
preço. Era pouca coisa menos que o valor de um novo, e ele me
disse que era mais econômico jogar aquele fora e comprar um
novo, pois além de peças originais, teria também a garantia.
De certa forma, o meu liquidificador é uma metáfora da
vida moderna. Com o custo cada vez mais alto dos serviços,
cresce entre os consumidores a tendência de comprar produtos
novos ao invés de procurar consertar os que se estragam. O custo
muitas vezes não compensa o preço do reparo - é mais barato e
vantajoso adquirir um produto novo.
O tempo e o custo são os fatores que determinam a
decisão. O tempo que perdemos levantando orçamentos, levando e
buscando o produto na oficina, isto sem contar o tempo em que
ficaremos privados do uso daquele bem - tudo isto, somado ao
custo do conserto, que vem ficando cada vez mais caro, tornam os
bens descartáveis. Freqüentemente tratamos as pessoas assim. O
tempo e o custo são fatores determinantes em nossos
relacionamentos modernos. Se elas têm problemas com depressão,
dívidas, solidão ou carência, preferimos não correr o risco de
nos envolver com elas. O tempo e o custo deste envolvimento pode
não ser compensador. É assim que nossa mente moderna funciona. O
problema é que quando dispensamos as pessoas por causa de suas
feridas, acabamos ignorando também os dons que nascem das
lacunas deixadas pela dor e sofrimento.
A rejeição nos impede de penetrar nos mistérios da vida
humana e da graça de Deus. Nos impede também de gozar a alegria
de servir a Cristo, servindo aos mais necessitados. Como disse o
reverendo Eugene Peterson, a dor e o sofrimento não são
problemas para serem resolvidos, mas mistérios para serem
acolhidos. Ao acolher estes mistérios, provamos não apenas a
bênção de servir, mas também a de restaurar a dignidade da vida.
Penso que foi isso que Jesus disse quando afirmou que
não veio para "apagar a torcida que fumega" ou para "pisar na
cana quebrada". Seu ministério foi caracterizado por uma atenção
constante ao fraco, ao oprimido, ao cansado. Ele não fica
irritado ou impaciente quando uma "mulher pecadora" invade um
recinto privado onde encontra-se jantando com um amigo, num
destes momentos que nós não gostamos de ser interrompidos,
principalmente por uma pessoa estranha, carente e inconveniente.
Simão, o dono da casa, mostra-se impaciente e irritado com o
gesto atrevido e impróprio daquela mulher. Jesus, no entanto,
pacientemente permite que ela chore, derrame suas lágrimas sobre
seus pés e os enxugue com seus cabelos.
Era uma mulher com problemas, muitos problemas, destas
que nós, consumidores religiosos, descartamos. Seria mais fácil,
e quem sabe mais útil, passar o tempo com outra pessoa, talvez
mais inteligente, com a vida mais resolvida, menos carente,
menos pecadora. Alguém que não tomasse muito do nosso precioso
tempo, que não exigisse tanta atenção, que não fizesse tanto
escândalo, que não comprometesse nossa reputação.
Mas são estas "mulheres pecadoras" que nos fazem ver o
quanto Jesus se importa conosco, com pessoas como eu e você.
Mesmo que nossas carências e inconveniências não sejam tão
explícitas, ou nossas feridas sejam mais reservadas, sabemos que
ele se importa conosco e, atenciosamente, ouve nossa queixa e
enxuga nossa lágrima. São estas pessoas que Jesus não trocou por
outras mais "novas", mais saudáveis, menos confusas e doentes,
mas que procurou acolher, amar, levantar e salvar, que fazem
como o ilustre Nicodemos, mestre da lei, que procurasse o Mestre
no meio da noite, às escondidas, porque sabia que também não
seria rejeitado.
Sou grato por Jesus não ser tão seletivo como eu sou,
por não descartar as pessoas como muitas vezes sou tentado a
fazer. Sou grato porque é exatamente este gesto que faz com que
eu, pecador como qualquer um destes mais descartados, sinta uma
atração irresistível por Cristo, porque sei que ele não "pisará
na cana quebrada" e nem "apagará a torcida que fumega".
Esta descrição profética que Isaías faz do Messias
apresenta uma das mais belas metáforas sobre o ministério de
Cristo. Seu esforço para restaurar nunca atinge o limite. Não há
lugar ou circunstância que seja longe ou complexa demais para
ele. Não há ferida que seja feia demais para que ele não a toque
com ternura e graça. Não há pecado, por mais grave que possa
parecer, que seu amor não alcance com perdão e redenção. Jesus
sempre estende a mão, nunca descarta. Ele jamais pisa, nem mesmo
por distração, naquilo que encontra-se caído ou quebrado. É bom
saber disto.
Mas nós somos cristãos modernos e uma das
características de nossa modernidade é a capacidade de descartar
e desprezar o inconveniente, de abandonar o que está estragado,
optar pelo novo, rejeitar o reparo. Somos ocupados demais para
dar atenção ao endividado, para ouvir as histórias do carente,
acolher o choro do cansado e abatido. Somos instruídos demais,
temos muitos diplomas e cursos para perder nosso precioso tempo
com aqueles que nada poderão nos oferecer como compensação pelo
nosso esforço. Precisamos resistir aos apelos do consumo, à
pressa desumana, e abrir nossos olhos, estendendo as mãos para
restaurar a cana quebrada e reacender a chama do pavio quase
apagado. Cuidar destes extremos é zelar pelo Reino de Deus. A
tarefa da Igreja, num mundo moderno e descartável, será a de dar
valor a tudo aquilo que nossa mente moderna despreza,
particularmente aos que, por sua enfermidade, deficiência,
cansaço e sofrimento, sentem-se abandonados e solitários. É
preciso manter a chama acesa, mesmo que haja apenas uma pequena
fagulha na ponta do pavio.
Ricardo Barbosa de Souza é pastor da Igreja Presbiteriana do
Planalto, é escritor e atua também como colunista nas revistas
Ultimato e Eclésia. |
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