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Estabilidade espiritual
Ricardo Barbosa de Sousa
“Como a compreensão da onipresença de Deus pode nos ajudar a
viver uma espiritualidade mais estável”
Há algum tempo estava lendo as “regras espirituais” de
Benedito, que viveu entre os anos de 480 e 550 de nossa era. Em
meio aos detalhes da vida monástica apresentados em suas
“regras”, deparei-me com o que ele chamava de “estabilidade
espiritual”.
O que me chamou a atenção foi sua natureza sábia e
simples. Para Benedito, a estabilidade espiritual nasce a
compreensão do fato de que Deus está presente em todo lugar. É
uma afirmação extremamente simples, um conceito fundamental da
fé e aceito por todos os cristãos – a onipresença de Deus. A
pergunta que me veio imediatamente à mente foi: como a
compreensão da onipresença de Deus pode nos ajudar a viver uma
espiritualidade mais estável?
Para Benedito, crer que Deus está presente em todo
lugar, não significa que Deus está presente em qualquer lugar.
Ou seja, para ele, Deus escolheu o coração do homem para fazer
ali a sua habitação. O Espírito de Deus habita em nós. Portanto,
ou Deus estará presente conosco em todo lugar ou não estará em
lugar algum. Para ele a regra é simples: se não sou capaz de
encontrar-me com Deus no silêncio do meu quarto, no momento de
minha devoção pessoal, não adianta muito correr atrás da
presença de Deus no agito da igreja e das reuniões porque não
vou encontrá-lo lá. Ou Deus está presente em todo lugar, ou não
estará presente em nenhum lugar. Esta é a regra para a
estabilidade espiritual. A certeza da presença de Deus em todo o
lugar, significa que mantenho comunhão com ele na fila do banco,
no meu trabalho, na escola, no silêncio do meu quarto e nos
encontros da igreja. A partir do momento que excluo Deus de
alguns desses lugares para encontrá-lo apenas nos outros,
estabeleço aquilo que Benedito chamava de “instabilidade
espiritual”.
A instabilidade espiritual caracteriza-se pela nossa
inquietação e incapacidade de perceber a presença de Deus em
nós. Para muitos, Deus está sempre em algum outro lugar; em
alguma reunião abençoada, num “culto quente” ou numa “vigília
poderosa”. São pessoas que vivem sempre correndo atrás de algum
lugar em que imaginam que Deus esteja, ou, na linguagem mais
popular, onde a “bênção” está. São os chamados “caça-bênçãos”.
Desta forma tornamo-nos incapazes de olhar para dentro e
encontrá-lo lá, onde Ele escolheu habitar.
Penso que é por isso que Jesus, quando ensinou seus
discípulos a orar, instruiu-os a entrarem no quarto para um
encontro secreto, dizendo que é no lugar secreto que aprendemos
a orar. Quem aprende a orar em secreto ora em qualquer lugar,
mas quem não sabe orar em secreto, dificilmente consegue orar em
outros lugares. Pode até expressar-se em oração, mas
dificilmente estabelecerá uma relação íntima, verdadeira e
pessoal. A estabilidade espiritual se dá quando encontramos Deus
em todo lugar a partir do encontro com Ele no lugar mais secreto
de nossa alma que é o nosso coração. Quando entendemos que o
Deus Emanuel é realmente “Deus conosco” haverá estabilidade
espiritual.
O Salmo 139 afirma que não podemos nos esconder de
Deus. Do mais profundo abismo até o mais alto penhasco, Deus
sempre haverá de nos encontrar. A presença de Deus não está
confinada a um lugar, numa situação geográfica ou litúrgica. Ele
não está lá como que fora de nós. Ele está aqui presente em todo
o lugar.
A crise que a religião de consumo tem trazido para a alma humana
hoje, não tem precedentes na história da igreja. Por todo lado
vemos este corre-corre atrás da “bênção” que está num congresso,
num livro, numa reunião, num louvor especial, numa igreja. Deus
está sempre do lado de fora, como um produto oferecido para ser
consumido ao som das propagandas, anunciando que você não pode
perder. Para muitos, hoje Deus está em algum lugar na prateleira
do supermercado religioso esperando pelos consumidores ansiosos
e inquietos que nunca aprendem a viver a “prática da presença de
Deus” em seu dia-a-dia. Deus não está lá, está aqui em nós. Era
isso que Benedito queria orientar em suas “regras espirituais”.
Para encontrar Deus não precisamos ir lá.
Quando descobrimos que Deus está presente em todo
lugar, esta descoberta nos livra de correr por aí atrás dele em
algum outro lugar. Ou Ele está presente em todo lugar, ou não
estará em nenhum lugar ou num lugar específico. É até possível
que encontre os vestígios de sua presença, mas não Deus; porque
Ele mesmo só pode ser encontrado no coração e na alma ouviu sua
voz e abriu a porta para que Ele viesse habitar.
Ricardo Barbosa de Souza é pastor da Igreja Presbiteriana do
Planalto, é escritor e atua também como colunista nas revistas
Ultimato e Eclésia.
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