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O Encardido da Alma
Myrian Talitha Lins
"Tendo pois ó amados, tais promessas, purifiquemo-nos de toda
impureza, tanto da carne, como do espírito, aperfeiçoando a
nossa santidade no temor de Deus." (1Co 7.1)
Todos já ouvimos histórias de crianças abandonadas, que
viviam pelas ruas e que um dia foram adotadas por alguma
família.
Imaginemos um desses meninos. Ele não tem lar, mora na rua com
outros garotos. Está entregue a si mesmo. Alimenta-se do que
encontra no lixo, ou do que lhe dão. De vez em quando consegue
roubar alguma coisa para comer. Dorme em cima de uns jornais,
cobre-se com um cobertor em farrapos, num cantinho de rua.
Obviamente não cuida de sua higiene pessoal – não toma banho,
não troca de roupa, não se penteia. Talvez nem mesmo saiba o que
sejam tais cuidados. Vivendo pelas ruas, em contato com toda
sorte de males, absorveu todos os vícios e impurezas próprios de
uma existência assim.
Mas certo dia esse garoto é adotado por um casal, que o
leva para viver na companhia deles, em sua casa. Chega em sua
nova morada imundo, descalço, cheirando mal, as roupas sujas e
rasgadas, o cabelo comprido e desgrenhado – uma imagem de dar
pena. A primeira coisa que a mãe adotiva faz é tirar-lhe as
roupas imprestáveis e colocar a criança debaixo de um chuveiro
ou numa banheira. E aja sabonete, água quente e esponja! Esse
primeiro banho tem de ser demorado e minucioso. A mãe irá
esfregar bem todo o seu corpo, desde o pescoço e a testa até a
sola do pé, isso sem mencionar o xampu e a escovinha para
esfregar a cabeça. Esse primeiro banho é de enorme importância
para que o garoto entre para a família e possa conviver com ela.
É um banho histórico.
Terminado o banho, o menino, agora limpo e enxuto,
veste roupas adequadas, calça meias e sapatos. Seu cabelo é
aparado e penteado; as unhas, cortadas; os dentes, escovados.
Pronto! Agora ele está preparado para iniciar uma nova vida,
numa casa nova com pais, irmãos, amigos e parentes, recebendo
carinho e atenção.
Agora aquela criança se sente leve, limpa, alegre e
tranqüila. Experimenta uma sensação intensa de bem-estar, a
sensação de estar limpa. Contudo, passados os primeiros
instantes da euforia causada pela transformação, a certa altura,
a mãe adotiva nota algumas manchas atrás da orelha do menino.
Apreensiva examina-o de perto e descobre que aquelas manchas
nada mais são que sujeira. Compreende então que aquele sujo
estava tão agarrado à pele que não foi removido no primeiro
banho. dá um suspiro de resignação e pensa:
“Amanhã quando ele for tomar banho de novo, vou dar uma
boa esfregada nessas manchas”.
E realmente o faz, conseguindo assim tirar aquela
sujeira da pele do filho. O menino protestou um pouco pela força
com que ela utilizou a esponja. A pele ficou um pouco irritada.
Mas afinal, o local ficou limpo. E a mãe se dá por satisfeita.
Mas dali a dois dias descobre outra mancha, desta vez
nos joelhos. Repete-se o mesmo processo doloroso, e a sujeira é
removida. E mais adiante outras manchas aparecem: nos
calcanhares, nos tornozelos, nos cotovelos, na nuca. E a cada
vez que a mãe encontra uma nova mancha, tem o zelo e o cuidado
de removê-la. Finalmente chega o dia em que parece que o garoto
não tem mais nenhum dos “encardidos” que tinha trazido da rua.
Agora é só ir cuidando da poeira do dia-a-dia.
Esta não parece ser a história da nossa alma? No dia em
que somos salvos, entramos para a família de Deus; somos
adotados por Ele. E nesse dia tomamos um “belo banho”. Nossa
alma é como que lavada da sujeira que havia se acumulado nos
muitos anos de contato com o mundo. Nesse primeiro e histórico
banho, arrependemo-nos de nossa vida de pecados, de nossa
rebeldia contra Deus, e recebemos o perdão do Pai. Abandonamos
nosso apego ao pecado, renunciamos ao erro, e nos “lavamos” de
muita sujeira. Tiramos as roupas rasgadas da justiça própria e
vestimos uma roupa nova; a justiça de Cristo. Tornamo-nos uma
nova criatura, com uma nova família, um novo ideal de vida, uma
nova visão das coisas. Então nos sentimos limpos, leves, seguros
e em paz. Gozamos intensa alegria e satisfação espiritual. Tudo
é festa!
Entretanto, passadas as primeiras semanas ou até meses,
começamos a perceber – diante do espelho da Palavra de Deus –
certas “manchas” espirituais que o primeiro banho não removeu.
São os “encardidos” da alma, erros que ficaram como que
agarrados em nosso caráter, e que precisarão de uma atenção
especial. São hábitos impuros, vícios mentais, maneiras erradas
de reagir a determinadas situações, sentimentos de cobiça,
inveja, ganância, etc., que se achavam escondidos pela sujeira
geral, mas que agora começam a ser percebidos. E o Espírito
Santo vai apontando outras sujeiras que precisam ser removidas:
impaciência, ansiedade, preocupação, apego a coisas materiais, e
diversas manchas semelhantes. Por vezes até nos assustamos ao
encontrar uma delas. Pensávamos que determinado erro estava
superado e, então, de repente, sem mais nem menos, lá surge ele
a envergonhar-nos. Tudo isso são sujeiras que ficaram grudadas
em nosso caráter, e que temos de ir removendo pouco a pouco até
que cheguemos “à perfeita varonilidade”.
E assim deve ser o nosso lavar diário. No momento em
que o Espírito nos revelar um desses “encardidos” da alma, vamos
confessá-lo a Deus, tomando a decisão de renunciar a tal prática
ou atitude, num consciente exercício da vontade. E ao tomar essa
deliberação, digamos ao Pai que abominamos aquele erro, aquele
“encardido” da alma. Fazendo isto com toda a sinceridade,
receberemos a purificação. Deus em sua misericórdia nos limpará
e nos libertará. E fará mais que isso. Ele nos dará forças para
resistirmos à tentação de repetir o erro, quando ela nos
assediar novamente.
Assim, pouco a pouco, vamos nos libertando das manchas
que trouxemos do mundo, e nos tornando mais semelhantes ao
bendito Filho de Deus.
Myrian Talitha Lins - Extraído da Revista Mensagem da Cruz
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