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Um sonho inquietante
Ricardo Gondim Rodrigues
Exausto, deitei-me já tarde. O silêncio da madrugada
fria convidava-me para uma noite de sono profundo. Aquela seria
uma noite curta pois antes do sol nascer já teria que estar em
pé novamente. Noites curtas são geralmente sem sonhos. Deito-me
e antes que perceba, as horas se passaram céleres. Ontem,
entretanto, não foi assim. Sonhei a noite inteira.
Sonhei que estava em um culto com o auditório lotado. A
reunião iniciou-se com uma oração muito mecânica. Apresentou-se
logo um grupo musical gospel. Nos primeiros acordes, notei que
faltava talento e sobravam decibéis. A letra era paupérrima,
toda a música concentrava-se em repetir um refrão: “O leão de
Judá derrotou o outro leão perigoso.” A multidão foi ao delírio
com o término da apresentação que todos chamaram de “louvorzão.”
Gritava e movia-se em um frenesi alucinante. O líder do culto,
levantou-se e ensinou as pessoas uma coreografia que, segundo
ele, derrotaria o diabo. Todos, como se estivessem com espadas
na mão, passaram a encenar uma batalha de esgrima. Terminada a
“batalha” foram gastos mais de quarenta minutos no levantamento
das ofertas. O ambiente tornou-se constrangedor. Tudo foi feito
para aumentar a contribuição. Desde ameaças a promessas de que
receberiam cem vezes mais. As ofertas resolveriam todos os
problemas das pessoas. De acordo com o valor dado, o câncer
desapareceria, os problemas conjugais se resolveriam. A oferta
seria a chave para uma vida plena e feliz.
O preletor daquela noite, levantou-se para pregar e,
por cerca de cinqüenta minutos, falou sobre assuntos diversos
sem, contudo conduzir uma linha de raciocínio, sem qualquer
compromisso de expor a Bíblia. Parecia não haver se preparado.
Falava, falava, deixando que suas divagações o conduzissem a um
próximo pensamento, que nem ele próprio sabia qual era. Meu
sonho me perturbava. Transformava-se em um pesadelo.
De repente, vi ao meu lado, participando daquele culto,
para minha absoluta surpresa, quatro personagens históricos:
Martinho Lutero, João Calvino, João Wesley e Charles Finney. Mal
podia acreditar que um dia estaria cultuando a Deus ao lado de
tão ilustres personalidades do mundo protestante. Em meu sonho,
eu fui apresentado a eles pelo sueco Gunar Vingren, fundador do
pentecostalismo no Brasil. Todos pareciam se conhecer há muito,
havia uma familiaridade entre eles. Contudo, embora estivéssemos
participando de um mesmo culto, todos mostravam-se igualmente
inquietos. O clima era desconfortável. Mesmo sonhando, lembro-me
de como o músculo de minha face tremia diante da honra de
apertar a mão de cada um deles. Muitas perguntas vieram à minha
mente. Curiosidades, esclarecimentos, dúvidas que precisavam ser
sanadas. Mas, ao contrário, eles é que começaram a me
questionar.
Lutero estava indignado pelo que parecia uma volta da
igreja à Época Medieval das relíquias, dos amuletos e das
indulgências. Queria saber o que aconteceu aos protestantes para
estarem novamente acreditando que sal grosso “afasta mal
olhado”, que copo d’água traz bênçãos. Perguntou-me como a
igreja passou a acreditar em maldição familiar.
Expliquei-lhe que a igreja brasileira convive com uma
cultura muito mística. Falei da herança católica medieval,
depois disse que os índios brasileiros eram animistas e ainda
tracei um cuidadoso curso da religiosidade africana e como ela
se contextualizou. Lutero, porém, veemente, mostrou-me os
efeitos devastadores que as relíquias tiveram em seus dias e que
somos justificados pela fé. Para ele, a Palavra deveria ser
suficiente para produzir fé e que não precisamos de “pontos de
contato” para que o poder de Deus flua em nós.
Calvino, interveio em minha conversa com Lutero. Ele
também estava revoltado. Sua maior preocupação era entender o
porquê de tanto descaso com a Bíblia. Ele não entendia como nos
separamos tanto da Reforma que transformou o conceito de culto.
Calvino me falava que até o avanço dos protestantes na Europa,
cultuar a Deus, resumia-se em se assistir a um ritual. A
liturgia era mais importante que a exposição do texto sagrado.
Mas os reformadores, segundo ele me dizia, lutaram muito para
que as pessoas apreendessem que a melhor maneira de cultuar a
Deus é conhecendo e vivendo os princípios eternos de Deus.
Concluiu me mostrando que o púlpito antigamente ficava deslocado
em um lugar de menor importância e que o altar é que era
central. Só no protestantismo, o púlpito passou a ocupar o lugar
mais central do templo. Tentei mostrar-lhe que estamos em uma
sociedade viciada em imagens. Que o nosso nível de atenção hoje
é mínimo. Falei-lhe dos vídeo clips, da superficialidade
cultural que a televisão produz. Ouviu-me com atenção, mas
parece não ter aceitado minha explicação.
Wesley estava aturdido. Em meu sonho, ele me dizia que
percebia por aquele culto que havia muitos chavões mas pouco
compromisso ético na igreja. Por duas vezes, me perguntou: “Será
possível conduzir a obra de Deus apenas prometendo triunfo, sem
jamais questionar a vocação profética da igreja? Wesley não
entendeu a interpretação de textos do Antigo Testamento,
prometendo que os crentes foram postos por cabeça e não por
cauda. Será que a igreja evangélica não sabe que o “grão de
trigo precisa morrer para produzir muitos frutos?” Insistia me
indagando: Não somos chamados para sermos sal da terra e luz do
mundo antes que nos preocuparmos com riqueza e poder? Novamente
tentei explicar. Mas, eu próprio estava envergonhado e minha
explicação foi vã.
No sonho, Charles Finney, também se aproximava de mim
querendo entender o que se passava. Falou-me de como eram os
cultos evangelísticos de seus dias e de como as pessoas
encaravam o novo nascimento. Mostrou-me que o apelo para as
pessoas se converterem foi uma quebra de paradigmas. Ele fazia o
apelo para que as pessoas que estavam “ansiosas” por salvação
tivessem um tempo para refletir e saber se realmente desejavam
um compromisso real com Cristo. Que o novo nascimento era uma
decisão importantíssima que as pessoas faziam em resposta à
graça. Sua inquietação com o culto de meus sonhos vinha da
maneira tão trivial que as pessoas encaravam a conversão e o
discipulado. Finney dizia-me que o cristianismo moderno está se
esvaziando de seus conteúdos e que em breve muitos não saberão
sequer explicar o que lhes aconteceu na conversão.
Gunnar Vingren, que me apresentou aos outros ilustres
personagens, não aceitava que todo o sacrifício dos pioneiros do
movimento pentecostal desmoronasse em uma teologia tão
imediatista. Ele dizia que não há pentecostes sem a cruz. Com um
sotaque sueco, disse-me: - Meu filho, não há experiências com o
Espírito Santo sem zelo missionário, sem paixão evangelística.
Comecei a suar e meu sono tornou-se atribulado. Estava
rodeado com uma grande nuvem de testemunhas, e todos tinham o
semblante preocupado. Acordei.
Sem conseguir voltar para a cama, orei. Em minha prece,
pedi que Deus levante uma igreja evangélica no Brasil
comprometida em ter apenas a Bíblia como regra de fé e de
prática. Pedi que Deus levante pastores que cuidem do povo como
rebanho de Deus e não como um investimento que pode ser
capitalizado no futuro. Orei para que os seminaristas não
confundam sucesso com um ministério aprovado por Deus. Supliquei
a Deus que nos faça uma igreja solidária com os miseráveis,
profética na defesa dos indignos e misericordiosa com os
pecadores.
Os sonhos são interessantes. Muitas vezes mostram o que
não queremos ver. Talvez, a maior necessidade da igreja seja
olhar-se criticamente. Se fecharmos os olhos para a
trivialização do sagrado, para a falta de compromissos éticos e
proféticos, para a transformação do culto em espetáculo, não só
nos condenamos a sermos irrelevantes para a nossa geração como
envergonharemos muita gente que já deu a sua vida pela causa de
Cristo.
Que Deus nos ajude.
Soli Deo Gloria
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