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Entre o pecado e o perdão
Elben M Lenz César
Não se passa diretamente do pecado ao perdão. O perdão
existe. E ai de nós se ele não existisse. O perdão retira um
fardo de sobre as costas que ninguém suporta. Só o perdão pode
levantar a mão de Deus que pesa dia e noite sobre aquele que
está em pecado. O perdão acaba com o senso de culpa, com os
pesadelos. Com a agitação nervosa, com o sobressalto. O perdão
restaura a saúde e o bom humor. O perdão devolve a alegria que o
pecado roubou.
Mas há um problema muito sério, impossível de ser
contornado. É que entre o pecado e o perdão há uma passagem
obrigatória que se chama arrependimento. Deus não autoriza
ninguém a falar em perdão sem falar antes em arrependimento.
Tanto João Batista quanto Jesus iniciaram a sua pregação com
este apelo: Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus
(Mt 3:2, 4:17). Quando a multidão, que estava em Jerusalém no
dia de Pentecostes, perguntou aos apóstolos o que deveriam fazer
frente à forte convicção de pecado que tomou conta dela, Pedro
respondeu de imediato: arrependei-vos... (Atos 2:38).
Sem arrependimento o perdão não acontece. Perdão sem
arrependimento estimula o próximo pecado e gera cinismo. Perdão
sem arrependimento não cura ninguém, não transforma ninguém.
Perdão sem arrependimento não torna ninguém ex-assassino,
ex-idólatra, ex-avarento, ex-adúltero, ex-sodomita. Perdão sem
arrependimento pode encher os templos religiosos, mas não enche
a Igreja do Deus Vivo. Perdão sem arrependimento é uma blasfêmia
contra a santidade de Deus.
A diferença entre o pecador notável e o
pecador arrependido
Elben M. Lenz César
Há perdão para qualquer pecado. A única exceção é a
blasfêmia “contra o Espírito Santo” (Mc 3.29). Mas o perdão
gracioso de Deus nunca é automático. A convicção do pecado
cometido e o arrependimento antecedem obrigatoriamente o perdão.
De outra forma, haveria o caos ético, o cinismo, a liberação de
todas as obrigações morais.
Os profetas, João Batista em especial, Jesus e os
apóstolos pregavam o arrependimento em sua forma mais solene.
Porque hoje em dia quase não se fala sobre o assunto, não se
sabe nem sequer o que é arrependimento.
Percebe-se facilmente que um pecador quer ser perdoado
sem arrependimento quando ele atira pedras para todos os lados:
quando diz que outros cometeram pecados iguais ou piores que os
dele; quando denuncia que “em 90% das igrejas existem pessoas
com problemas relacionados ao homossexualismo”; quando justifica
seus deslizes dizendo ter ficado “quase um ano inteiro sem
manter relações sexuais” ou não ter sido “plenamente saciada por
um homem nessa área”; e assim por diante.
O pecador que reconhece a necessidade do perdão de Deus
e da igreja usa outro vocabulário, não dá entrevista, não
continua sob holofotes, não cede à tentação de ser um pecador
notável, não se defende, não acusa os outros nem sequer seus
eventuais parceiros ou cúmplices. Ele entra no quarto, fecha a
porta, se ajoelha, chora e confessa:
Eu mesmo reconheço as minhas transgressões, e o meu
pecado sempre me persegue. Contra ti, só contra ti, pequei e fiz
o que tu reprovas, de modo que justa é a tua sentença e tens
razão em condenar-me. Sei que sou pecador desde que nasci, sim,
desde que me concebeu minha mãe (Sl 51.3-5, NVI).
Depois de chorar e confessar esse pecador clama:
Tem misericórdia de mim, ó Deus, por teu amor; por tua
grande compaixão apaga as minhas transgressões. Lava-me de toda
a minha culpa e purifica-me do meu pecado [...] Cria em mim um
coração puro, ó Deus, e renova dentro de mim um espírito
estável. Não me expulses da tua presença, nem tires de mim o teu
Santo Espírito. Devolve-me a alegria da tua salvação e
sustenta-me com um espírito pronto a obedecer” (Sl 51.1,2,
10-12, NVI).
Se alguém se aproveita do escândalo do outro para tirar
alguma vantagem pessoal (caso de Absalão) ou para se vingar de
coisas remotas (caso de Simei), já o pecador arrependido entende
que são conseqüências naturais de seu pecado e suporta calado e
humildemente essas situações passageiras (2 Sm 16.10-13).
Se Davi quisesse o perdão sem arrependimento, ele
poderia ter dado a explicação comum nos dias de hoje, dizendo:
“A culpa é da mulher de Urias, que estava tomando banho com a
janela totalmente aberta”. Poderia também ter posto a culpa em
sua crise de meia-idade ou nas esposas que já não o satisfaziam
sexualmente. Ele preferiu outro caminho — o único que dá certo,
o único que leva ao perdão, à restauração, e traz de volta a
alegria.
O filho pródigo poderia ter alegado que saíra de casa
para uma terra distante porque o irmão era muito chato. Mas ele
preferiu o caminho do arrependimento pessoal: “Pai, pequei
contra o céu e contra ti. Não sou mais digno de ser chamado teu
filho” (Lc 15.21). Essa escolha redundou em festa, anel no dedo,
calçados nos pés, roupa nova e churrasco de boi gordo!
Do mau cheiro ao perfume
Elben M. Lenz César
A genética diz que o olfato é o sentido mais antigo do
ser humano. Por meio dele somos capazes de captar e distinguir
os cheiros que muitas substâncias espalham no ar. A olfação pode
provocar tanto uma sensação agradabilíssima como uma sensação
diametralmente contrária. Isso porque nem todos os cheiros que
sentimos são agradáveis. O cientista Zwaarde Maker divide os
odores em nove grupos, dos etéreos aos nojentos, passando pelos
odores acres, azedos e repelentes.
O mau cheiro vem de algum alimento estragado, não
conservado sob refrigeração adequada. É o caso do maná, aquela
comida que os israelitas comeram durante os 40 anos do êxodo. Se
deixado para a manhã seguinte, o maná dava bichos e “cheirava
mal” (Êx 16.20).
O mau cheiro vem de alguma doença localizada nas
gengivas, amídalas, estômago e intestinos. É o caso de Jó,
aquele homem íntegro e justo que adoeceu gravemente. Ele mesmo
conta: “A minha mulher acha repugnante o meu hálito; meus
próprios irmãos têm nojo de mim” (Jó 19.17, NVI).
O mau cheiro vem também daquele processo que
“irremediavelmente reduz o corpo humano à inércia, ao
enrijecimento e à putrefação”, ao qual damos o nome de morte.
Quando Jesus se dirigiu ao túmulo de Lázaro, Marta lhe adiantou:
“Senhor, ele está cheirando mal, pois já faz quatro dias que foi
sepultado” (Jo 11.39).
Há uma outra fonte de mau cheiro, pouco mencionada e
pouco investigada. É o cheiro do pecado. A ele se refere a
recém-eleita deputada federal Denise Frossard, em seu livro Os
Caminhos da Transparência. A ex-juíza chama de “mau hálito
político” a proliferação das práticas corruptas na máquina
governamental.
O fedor do pecado existe porque estamos moralmente
doentes por dentro. Carregamos todos uma bagagem mal-cheirosa,
que tenta se liberar e vir para fora. Quando isso acontece,
exalamos odores fétidos. A melhor explicação a respeito foi dada
por Jesus: “O que sai do homem é que o torna impuro, pois do
interior do coração dos homens vêm os maus pensamentos, as
imoralidades sexuais, os roubos, os homicídios, os adultérios,
as cobiças, as maldades, o engano, a devassidão, a inveja, a
calúnia, a arrogância e a insensatez”. Jesus termina a mais
completa análise da natureza humana batendo na mesma tecla:
“Todos esses males vêm de dentro e tornam o homem impuro” (Mc
7.20-23, NVI).
Porque o número de pessoas que não trancam sua
pecaminosidade latente e a deixam se expressar é maior do que o
número de pessoas que agem de modo contrário, a atmosfera que
respiramos agride violentamente o nosso olfato.
Não foi à toa que Jesus chamou os escribas e fariseus de seu
tempo de sepulcros caiados, “que, por fora, se mostram belos,
mas interiormente estão cheios de ossos de morte e de toda
imundícia” (Mt 23.27).
Paulo foi mais explícito ainda quando citou uma
passagem dos Salmos (Sl 5.9) e explicou que as gargantas dos
ímpios “são um túmulo aberto” (Rm 3.13). Assim como o mau hálito
intolerável de Jó saía pela garganta e pela boca, o fedor do
pecado contamina o ambiente quando a tampa do sepulcro é
levantada e toda a porcaria moral ali encerrada vem para fora.
O mau cheiro do pecado pode ser contido com a não
satisfação de seus reclamos no poder do Espírito Santo. Então,
em vez de exalar odores acres, azedos, repelentes e nojentos,
aquele que tem o hábito cristão de negar-se a si mesmo passa a
exalar odores etéreos, elevados, celestiais e sublimes. Ele
transforma o fedor em perfume e começa a exalar aquele aroma
agradável que chega até onde Deus está e alcança todos que estão
à sua volta. Aí se cumpre aquilo que Paulo declarou à igreja de
Corinto, formada de ex-imorais, ex-idólatras, ex-adúlteros,
ex-homossexuais, ex-ladrões, ex-avarentos, ex-alcoólatras,
ex-caluniadores e ex-trapaceiros (1 Co 6.9-10): “Nós somos para
com Deus o bom perfume de Cristo, tanto nos que são salvos como
nos que se perdem” (2 Co 2.15).
Extraído da Revista Ultimato
www.ultimato.com.br
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