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A Bíblia e a maturidade espiritual
Ricardo Barbosa de Sousa
O apóstolo Paulo, ao exortar seu filho na fé Timóteo a
combater e resistir aos males e corrupções dos tempos difíceis,
o aconselha dizendo: "Tu, porém, permanece naquilo que
aprendeste e de que foste inteirado, sabendo de quem o
aprendeste. E que, desde a infância, sabes as sagradas letras,
que podem tornar-te sábio para a salvação pela fé em Cristo
Jesus. Toda Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino,
para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça,
a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente
habilitado para toda a boa obra" (2Tm 3:14-17).
Diante da crise, da confusão instalada e alimentada por
homens egoístas, avarentos, arrogantes, ingratos e irreverentes;
do abandono da verdade, da perda de significado, da corrupção da
mente e do coração e de uma fé confusa, Paulo apela para que
Timóteo volte para as Escrituras e que permaneça nelas.
Vivemos hoje um tempo semelhante ao descrito por Paulo
no capítulo 3 da segunda carta a Timóteo. Um tempo onde o
egoísmo, alimentado pelo individualismo narcisista, desenvolve
um modelo de fé num Deus comprometido em nos agradar e
satisfazer nossas necessidades mundanas e mesquinhas. Um tempo
onde pastores e pregadores estão mais interessados em construir
seus pequenos impérios, seduzindo e iludindo homens e mulheres
ingênuos, manipulando suas mentes e roubando seus bolsos. Um
tempo onde a busca pelo poder, sucesso, admiração e
reconhecimento tomaram o lugar da piedade, simplicidade e
sensatez. Num tempo assim, precisamos mais uma vez voltar para
as Escrituras e encontrar um eixo em torno do qual devemos
orientar nossa espiritualidade.
Viemos de Deus e voltaremos para Deus. Somente ele pode
dar sentido à vida. Como disse Agostinho no início de suas
Confissões: "Fizeste-nos para ti, ó Deus, e nossa alma não
encontrará repouso enquanto não descansar em ti". O mesmo
apóstolo Paulo também afirmou que nossa vida está oculta em
Cristo e que se alguém deseja encontrá-la, deve procurá-la na
comunhão com ele. Temos hoje muitas ferramentas que nos ajudam a
compreender a complexidade da vida: sociologia, antropologia,
psicologia etc; no entanto, nenhuma delas nos levará ao coração
dos nossos anseios, senão o encontro com o próprio Deus revelado
em seu Filho Jesus Cristo. É por isto que Paulo coloca as
Escrituras como a única ferramenta capaz de conduzir o homem à
sua plenitude e colocá-lo no caminho das boas obras.
São as Escrituras que tornam o homem sábio para a
salvação. Sabedoria não é uma conquista acadêmica, e sim uma
dádiva da salvação. A redenção do homem é a obra da graça de
Deus que o salva de um mundo que o escraviza. Jacques Ellul
descreve a ação salvadora de Deus como um processo que nos
liberta de um cativeiro com o qual nos acostumamos e resistimos
a sair dele. Ele descreve a ação salvadora como algo muitas
vezes catastrófico: "Cada ato de Deus em Jesus Cristo implica,
para os homens inseridos no mundo, solidários com o mundo,
separados de Deus, em conflito com ele, um aspecto catastrófico.
"O homem é de tal forma presa das potências, de tal
forma associado às obras delas, diverte-se de tal forma para
proveito delas, deseja de tal forma tudo o que elas oferecem,
concebe a tal ponto a sua vida separada de Deus, que qualquer
aproximação de Deus, qualquer obra positiva de Deus, lhe aparece
como uma perturbação inaceitável e, finalmente, um ataque contra
ele mesmo. Quando Deus vem libertá-lo, não percebe absolutamente
a sua libertação; protesta contra a ruptura destes maravilhosos
objetos que são as suas correntes ou as portas da sua prisão: as
correntes adoradas. É bem esta a situação do homem. E devemos
compreender que toda obra de libertação é efetivamente
destruidora do ambiente mau".
A sabedoria da salvação consiste em reconhecer esta
ação salvadora de Deus e aprender a olhar para a vida com os
olhos do Criador e, a partir dele, viver a vida liberta. São as
Escrituras que orientam e corrigem nossos caminhos. Ignorá-la é
entrar numa grande floresta sem bússola, é se aventurar ao mar
sem conhecer a astronomia ou os instrumentos que nos guiam na
escuridão. Jesus certa vez disse: "Errais, não conhecendo as
Escrituras"; erramos e continuaremos errando na medida em que
nos afastamos da revelação de Deus em Cristo Jesus. A ignorância
da salvação de Deus é o maior inimigo do homem; é a maior causa
de conflitos e perturbações da alma.
Reconheço que para muitos o estudo e a meditação na
Bíblia é uma tarefa difícil, enfadonha e cansativa. É assim que
muitos se sentem, inclusive eu. Preferimos então beber água de
segunda mão do que cavar nosso próprio poço. "Tu, porém,
permanece naquilo que aprendeste", dizem as Escrituras; noutras
palavras, Paulo insiste dizendo: construa sua própria fé, crie
raízes para suas convicções, não permita que outros te seduzam
com fábulas e fantasias. Por certo, será um caminho que exigirá
mais esforço e disciplina, mas é caminho de vida, de justiça e
paz. Permaneçam nele, guardem as verdades bíblicas que
aprenderam na igreja, nas conversas com irmãos, nas meditações
devocionais.
No Velho Testamento somos recomendados a fixar a
Palavra de Deus nos umbrais de nossas portas para lembrar dela
sempre, que devemos repeti-la quando andamos pelo caminho,
quando deitamos ou levantamos. Davi dizia que a Palavra de Deus
era como mel para seu paladar e que a desejava muito mais do que
um rei desejava o ouro.
Temos vivido momentos difíceis, mas quero aqui
recomendar: Leia a Bíblia, não passe um dia sem meditar nela.
Pode parecer uma recomendação simplista, mas logo você
descobrirá que ela é fonte de uma salvação sábia e que somente
através dela é que nos tornaremos aptos e preparados para viver.
Ricardo Barbosa de Souza é pastor da Igreja Presbiteriana do
Planalto, é escritor e atua também como colunista nas revistas
Ultimato e Eclésia. |
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