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Desafios para o novo milênio
Isaltino Gomes Coelho Filho
Eu gostaria de abordar os desafios que estão diante da
igreja neste novo milênio que se inicia, sem necessidade de
futurologia. Falar de desafios para o próximo milênio é falar de
desafios que já se delineiam agora.
Minha palavra é a palavra de quem está há vinte e
quatro anos no ministério pastoral e vinte e três no magistério
teológico. Não dá autoridade, mas permite uma certa visão. Já
fui diretor de seminário e hoje sou pastor de igreja local e
presidente de uma convenção estadual de igrejas. A rigor, isso
também não dá autoridade para nada, mas permite ver por vários
ângulos. Mesmo quando na direção de um seminário, por nove anos,
a paixão maior sempre foi a igreja local. Hoje, na igreja local
novamente, a educação teológica continua como algo que amo. Não
sou autoridade, mas sou pastor de igreja e professor de
teologia. E pretendo falar de desafios para uma educação
teológica que atenda às necessidades da igreja local. Vou
começar com um pergunta: “a educação teológica está sendo um bem
ou um mal para nossas igrejas?”.
1. A Educação Ministerial: Um bem ou um mal?
A pergunta não é retórica. É séria. Quero fazer papel
do advogado do Diabo. Quando a Igreja Católica começa o processo
de beatificação ou canonização de alguém, uma pessoa é incumbida
de levantar todas as dúvidas possíveis e todos os possíveis
defeitos do pretenso beato. É o advogado do Diabo, assim chamado
porque tem que levantar dúvidas para que o novo santo não tenha
falhas esquecidas e que depois se mostrarão, quando será muito
tarde.
Em nível de constatação, verificamos que a educação
teológica é mais forte nas denominações históricas que nas
denominações pentecostais, no Brasil. E é quase nula nas
denominações neopentecostais, como Universal do Reino de Deus.
Seguindo a diferenciação feita por Snook, em Doutrinação e
Educação (Zahar: 1974), doutrinação é catequese. A educação é
capacitação para uma ação equilibrada e sadia, que permite
avaliação do processo. Há quem faça doutrinação, ensinando
“dicas” e truques, como “segredos para levantar boas ofertas” e
chame a isso de educação. Não o é, definitivamente. A educação
pressupõe um processo dialético em que o educando avalie o que
está sendo passado, questione e adapte a novas circunstâncias,
seu local de trabalho, seu modus vivendi, enfim.
Deixemos esta questão de lado, que na presente palestra
é periférica. Voltemos ao fato de que as denominações com
doutrinação e com nível teológico menos consistente estão com
uma taxa maior de crescimento, no Brasil. Por isso, a questão: é
a educação teológica um bem ou um mal? Ela capacita os obreiros
ou os aprisiona em camisas de força? Ela desenvolve a
criatividade e aumenta a espiritualidade ou inibe a capacidade
de questionar e adaptar, além de criar apenas hereges?
2. Questões a considerar
Não tenho a preocupação de parecer negativista ou
generalizador. O trabalho não é exaustivo. Não é uma tese de
mestrado. É a exibição de questões que preocupam um pastor que
tem trabalhado na educação ministerial. Que já foi vitrine e
hoje é estilingue. Tomou pedradas porque dirigia um seminário e
hoje está do lado que atira pedras, porque é presidente de uma
convenção que mantém um seminário. En pasant, digo que não sou
bom em jogar pedras. Há outros colegas no campo que fazem isso
muito bem.
a. Denominações históricas, como batistas e
presbiterianos, que têm raízes históricas e teológicas muito
fortes, têm crescido menos que as denominações pentecostais e
muito menos que as neopentecostais, como a citada Universal do
Reino de Deus. Antes de análises deste ponto, considere-se que
parece que quanto mais instruído teologicamente é um obreiro,
menor a sua capacidade de falar de Jesus ao homem da rua.
Torna-se um especialista em religião e em seus aspectos mais
herméticos.
b. As denominações históricas têm problemas doutrinários
bem sérios. Alguém poderá achar que a associação entre
denominações históricas e educação teológica ou é irrelevante ou
é casual. Mas este ponto é mais agudo: com tantos seminários,
com tanta literatura de bom e excelente nível, o fato é que
muitas de nossas igrejas passam por problemas doutrinários bem
sérios. Apesar de todo o cabedal à sua disposição, não têm
segurança doutrinária. Inquiri de um amigo canadense sobre o
crescimento do evangelho na China, sem missionários estrangeiros
e sem educação teológica formal. Não achava ele que isso nos
deveria levar a um repensar do que fazemos? Sua resposta foi que
a igreja na China tem muitos problemas doutrinários. Respondi
que nós também, com todos os seminários que dispomos e com toda
a literatura que produzimos.
c. As denominações históricas, vez por outra, perdem
parcelas significativas de uma igreja local e, por vezes, até
igrejas inteiras para movimentos neopentecostais. Toda uma
tradição litúrgica e teológica é dispensada, em questão de
momentos. Na maior parte das vezes, o desviador é o líder, que
tem uma educação teológica formal. No caso da Convenção Batista
Brasileira, meu grupo, os maiores problemas doutrinários não
saíram dos seminários de “fundo de quintal”, como alguns chamam
pejorativamente os seminários estaduais. Saíram de seminários
nacionais, com toda estrutura de que dispõem.
Até agora, meus levantamentos são genéricos, sem dados
científicos. Alguém poderá alegar que estas questões têm
explicações sociológicas, psicológicas e culturais. Não nego.
Acho que todo fenômeno as tem. Um fato fica claro, no entanto:
após mais de um século de trabalho evangélico histórico no
Brasil, não temos um ministério seguro. Com toda a nossa
estrutura, deveríamos ter um ministério bem habilitado. Não me
parece que tenhamos. Os maiores problemas das igrejas históricas
têm sido causados pelo seu ministério. É a questão de um produto
final da educação teológica que é deficiente.
d. A educação teológica corre o risco de transformar o
evangelho em matéria de informação. O elemento cognitivo tem
recebido mais influência que o elemento caráter e mais ainda que
o elemento espiritualidade. O produto final da educação
teológica deveria ser um líder capacitado, equilibrado
emocionalmente, sadio espiritualmente e de personalidade cristã
à toda prova. Sabemos que não tem sido assim. O cognitivo tem
prevalecido sobre o caráter cristão. Há mais discurso que
manifestação do poder de Deus em nossas igrejas. E, o que é
pior, em boa parte das vezes, o discurso é apenas operacional e
apologético: como a coisa funciona e como somos melhores que os
outros.
e. A educação teológica tem deixado a desejar no preparo
de obreiros contextualizados ao tempo e à urbanização acelerada
de nossa época. Entidades como SEPAL e congêneres têm feito isso
melhor. Os seminários não têm produzido obreiros com visão da
igreja urbana, da sociedade pós-industrial, de informação. Por
fazer parte de uma estrutura denominacional, ele se vê num
dilema: precisa preparar os obreiros da denominação, mas esta,
como toda instituição cristalizada, se engessa e teme o novo.
Perpetua o existente. Mudança nunca são bem-vindas em nosso
meio. A educação se torna mais reprodutora que criativa e
capacitadora, até mesmo por subsistência da instituição.
f. Um grave perigo da educação teológica é a elitização
do obreiros. Minha igreja local procurou por alguns anos um
obreiro para uma congregação numa cidade do interior. A
remuneração era compatível e até acima do mercado de trabalho da
cidade. Por fim, estamos optando pela ordenação de um empresário
da cidade, membro da igreja, sem educação teológica formal.
Temos um seminário na cidade de Manaus, mas por razões que
independem do seminário, os obreiros nem sempre se deslocam para
o interior bem interior. As cidades onde os seminários estão
instalados estão repletas de pessoas com curso teológico, que se
formaram e ali ficaram. A periferia continua sem atendimento.
Muitas vezes o obreiro já sai querendo uma igreja grande e um
bom salário. O preço a pagar de um trabalho por iniciar, de anos
numa região onde não há assistência, onde a remuneração será
menor, mas o crescimento emocional será enorme, nem sempre é
desejado pelos novos obreiros.
3. Para onde estou indo?
Para onde estou levando este assunto? Para a questão
fundamental de minha apresentação: que tipo de obreiro desejamos
nós? Que desafios se colocam diante do seminário dos próximos
anos? Que obreiro deve sair do seminários nos anos que estão
sendo consumidos rapidamente fazendo o milênio próximo se
avizinhar?
a. Precisamos de obreiros profundamente convencidos da
veracidade das Escrituras e da centralidade da pessoa de Cristo.
A liturgia tem tomado o lugar de Cristo em muitos cultos.
Tornou-se até, em alguns círculos, o ponto central do culto. O
meio se tornou o fim e virou uma espécie de catarse evangélica.
Num tempo que se mostra com tantas novidades, como cristais,
pirâmides, numerologia, com a invasão do orientalismo, com o
conceito de um Deus impessoal, que é apenas energia e força, é
necessário termos obreiros profundamente convencidos do lugar da
Bíblia e da centralidade da pessoa de Jesus Cristo. Com isso
quero dizer que a formação de homens e mulheres de fé é a
primeira responsabilidade do seminário para o próximo milênio.
Numa expressão de Lloyd-Jones, pessoas “intoxicadas de Cristo”.
E isto não é ser piegas. É questão fundamental, de sobrevivência
da igreja como instituição e dos próprios seminários.
b. Precisamos de obreiros profundamente comprometidos com
o reino de Deus. Que o priorizem em suas vidas. Pastores que
sejam pastores e apaixonados por serem pastores. Pregadores que
amem o púlpito e dele se desincumbam com zelo. Educadores
religiosos e músicos que amem seu trabalho, vendo-o como paixão,
mais que como ganha-pão. Gente que ame a obra de Deus e se gaste
nela. O desafio do seminário, aqui, é o de formar homens e
mulheres piedosos e consagrados. É preciso acabar com a falsa
opção: ou se é “fera” ou se é piedoso. Piedade e erudição não
são antônimos. Numa frase de Helmut Thielicke, “o pensamento
teológico só pode respirar em um atmosfera de diálogo com Deus”
(Recomendações aos Jovens Teólogos e Pastores, SEPAL: 1990, p.
56). A verdadeira teologia aproxima de Deus. Estudos teológicos
que enfermam em vez de melhorar a pessoa devem ser repensados.
Há algo de errado neles.
c. Precisamos de líderes com equilíbrio moral, espiritual
e emocional. As pressões do ministério são muito fortes. O peso
emocional é enorme. Muitos escândalos e muita defecção têm
surgido por falta de equilíbrio e de bom senso. Em assembléias
convencionais e em alguns escritos há líderes que evidenciam
mais ser jagunços que seguidores de Jesus. Gente destemperada. O
caráter cristão deve ser trabalhado no seminário. Esta é uma
área que permite muito narcisismo. O líder tem uma linha
vermelha com Deus. Há sempre alguém que concorde com seus
disparates. Observa-se a falta de bom senso, de equilíbrio, na
liderança de igrejas e denominações.
d. Precisamos de líderes competentes. O nível do
ministério tem deixado a desejar. Pregadores com argumentação
confusa, com um português que faria Machado de Assis ter um
ataque apoplético, com um discurso sem nexo e sem ligação com a
vida real das pessoas. Administrações desorganizadas.
Competência é fundamental. Não vejo o seminário como escola de
formação de mão obra especializada, mas o seminário deve formar
gente que seja especialista no que faz, ou seja, que faça bem,
com eficiência. Precisa haver mais rigor no nível de educação. O
produto final precisa ser mais bem acabado.
e. Precisamos de líderes com firmeza. Que sejam
comprometidos com suas doutrinas. O rebanho as abraçou e
convidou o pastor porque julgava que ele as sustentava. Ele
trabalha dois anos, subrepticiamente e desvia o rebanho da linha
doutrinária e divide a igreja. A Convenção Batista Brasileira
tem 6.000 igrejas. E tem cerca de 7.000 pastores. Mas há igrejas
sem pastores e com dificuldades para conseguir um. O relator da
Comissão de Sucessão Pastoral de uma igreja local, me procurou
para conversarmos sobre sua igreja. Depois de algum tempo, ele
declarou: “Pastor, nós estamos com medo de convidar um pastor.
Eles mentem para a igreja, fingem que são o que não são e
desviam a igreja da denominação, depois”. O irmão pode ter
generalizado, mas tem razão. É esta a imagem que muitos leigos
têm dos obreiros que nossos seminários preparam. Quando uma
grande igreja fica sem pastor, numa denominação com mais
pastores que igrejas, ela fica sem muitas opções. O povo tem se
queixado de não haver obreiros confiáveis. O seminário precisa
formar obreiros confiáveis.
f. Precisamos de líderes com abertura. Que sejam firmes
na sua doutrina, mas que vejam os outros sem desconfiança. A
comunhão dos santos em termos de convivência é um processo
irreversível. Há bastante para aprender dos outros e para
ensinar. Há dois meses atrás fui fazer palestras para pastores
em Roraima. Fiquei muito impressionado com a convivência não
apenas amistosa, mas em termos de apoio e de solidariedade entre
pastores de várias denominações. Um que estava sofrendo com um
problema em seu grupo estava sendo apoiado pelos demais. Gente
que se via sem desconfiança. Precisamos de obreiros assim, de
coração aberto e puro para com os colegas.
g. Precisamos de obreiros com cultura secular. Que
conheçam o mundo em que estão inseridos, que saibam fazer
conexões entre a cultura de sua sociedade e o ensino bíblico.
Que sejam possuidores de uma cosmovisão bíblica que lhes permita
interpretar não apenas o mundo secular, mas as esquisitices
evangélicas que surgem toda semana. Em Manaus começou a
circular, nos faxes, um artigo, montagem grosseira, sobre um
menino que nascera com chifres, rabo e o número 666 tatuado nas
costas. Seria o anticristo que nascera. Uma grossa tolice e uma
fraude horrível, mas como houve histeria e líderes preocupados
porque o anticristo já havia chegado! É preciso conhecer o
universo teológico, o universo secular e o universo de
superstições, novidades e grifes evangélicas. Precisamos de
obreiros lúcidos, com uma boa cosmovisão bíblica.
4. O que isto implica para os seminários neste novo milênio?
a. Significa que o próprio seminário precisa ser
comprometido com o reino. Não é uma confraria de
livres-pensadores, mas um agrupamento de homens e mulheres que
preparam outros homens e mulheres para o serviço de Deus. O
currículo oculto é mais forte do que parece. E o mais evidente
currículo oculto é o da vida do professor. A direção e os
professores devem ser engajados no reino, comprometidos com
Cristo e sua causa.
b. Significa que o seminário precisa ter alvos bem
definidos. Dizer que sua função “é preparar obreiros” é
desconhecer sua razão de ser. A função maior de um seminário é
promover a glória de Deus e a partir deste alvo, todos os outros
devem partir. O seminário deve ter uma filosofia de educação
estabelecida, valores bem definidos. O que pretende ele fazer
com o aluno que chega para o seu curso? O que pretende que
aconteça na vida do “noviço” ?
c. Significa que o seminário deve ser um centro de
pesquisa da cultura contemporânea por uma cosmovisão cristã. A
fé cristão não pode deixar de ser a lente pela qual a cultura
secular seja analisada. Um preletor que nos visitou, quando eu
era diretor da Faculdade Teológica de Brasília, começou com
perguntas sobre quantos semestres os alunos tinham de Grego, de
Hebraico, de Homilética, etc. Depois perguntou: “e quantos
semestres de Brasília vocês estudam?”. Aquilo me despertou. Não
estudávamos nossa cidade, uma cidade toda especial, peculiar.
d. Significa que o seminário deve ter um currículo
constantemente atualizado. Um currículo com mais de cinco anos
estará se defasando. Há disciplinas imutáveis. Grego e Hebraico
seguirão sempre o mesmo conteúdo programático. Mas Cultura
Brasileira será sempre mutável. Lecionei uma disciplina em que
os alunos foram obrigados a assistir a novela das oito da Globo.
Quantos conceitos são passados ao nosso povo nestas novelas e
nós não as assistimos porque “novela é alienação”. Ela é
geradora de comportamentos. Um currículo moderno deve estar
atento a isto tudo. No meu currículo de bacharel em Teologia
consta que obtive a nota 100 em Metodologia Teológica. Não tenho
a menor noção do que estudei nesta disciplina. Não houve livro
texto. Se houve alguma apostila, não a encontrei. Não tenho a
mínima noção de como esta disciplina me afetou. Creio que foi
irrelevante, pois nem sabia que a tinha estudado. Mas no
mestrado é que fui estudar o “jeitinho” brasileiro, a teologia
da prosperidade, etc.. Houve mais proveito no mestrado que no
bacharelado, que prepara para o ministério.
Sai do seminário absolutamente perdido. Sabia sobre
Barth, Bultman, Brunner, e outros. Mas não sabia lidar com o
povo. E fui estudar para ser pastor, que lida com povo.
À guisa de conclusão
Este é título da minha conclusão, porque não concluo
nada nela. Não posso sair sem ouvir. Mas esta é a posição de
alguém que é pastor, que ama a igreja de Cristo. Um dos meus
livros se intitula À Igreja, Com Carinho. É a posição de alguém
que tem falhas, que erra muito, mas que tenta acertar. A posição
de alguém que, graças sejam dadas a Deus, conseguiu uma certa
credibilidade e tem ouvidos desabafos de líderes leigos que
estão insatisfeitos em suas igrejas, com o tipo de liderança que
nelas acontece. Pode ser que meus liderados se queixem com
outros, mas tenho ouvido queixas. E é a palavra de alguém que
ama a educação teológica, pode ser que até volte para ela
(dizemos que “o futuro a Deus pertence”) e por isso a valoriza.
O que podia dizer, disse. Agora, pensemos sobre isto e vejamos
aonde podemos chegar, no desejo de ter seminários bem
capacitados neste novo milênio, produzindo obreiros bem
preparados, para a glória de Deus.
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