Análise filogenética no rebanho da Cabanha Santa Isabel

A necessidade de preservar a diversidade genética, tanto animal quanto vegetal é hoje uma realidade. Para tanto, muitos países estão desenvolvendo programas de conservação e melhoramento, os quais têm a finalidade de manter animais puros, ou seja, sem a introdução de genes de outras raças, o que muitas vezes é feito apenas por puro modismo.

A escolha desses indivíduos recebe uma atenção toda especial, para evitar a manutenção de animais que não respondam satisfatoriamente ao que se procura. Busca-se, assim, evitar que os recursos empregados durante esse processo sejam perdidos. O modus operandi e as ferramentas empregadas para esta finalidade recebem um cuidado todo especial por parte dos pesquisadores e conservacionistas. Os animais são selecionados usando-se de várias formas, aí incluso o padrão fenotípico. Para se assegurar que a diversidade genética, tanto de plantas como de animais seja mantida, técnicas de biotecnologia molecular e bioquímica vêm sendo utilizadas.

A conservação genética é baseada nos rebanhos de raças puras e os marcadores moleculares fornecem um método de identificação quando ocorrem cruzamentos nesses grupamentos raciais assim considerados como puros. Dessa forma, torna-se muito fácil detectar a infusão de raças exóticas em populações descritas e registradas como puras.

Nós, da Cabanha Santa Isabel, estamos desenvolvendo um trabalho que tem por objetivo detectar os animais Shorthorn 100% puros, que porventura ainda existam no rebanho brasileiro. É certo que alguns animais se encaixam nesta classificação quando analisados através dos pedigrees. Apesar disso, é de nosso conhecimento que alguns dos animais oriundos dessa mesma genealogia, cuja origem é canadense, são embustes genéticos, pois os respectivos criadores, em razão de seus próprios interesses, trocaram a identidade das mães daqueles animais, no país de origem.

Além do objetivo principal de todo o projeto, temos também grande interesse em encontrar respostas conclusivas a respeito das dúvidas que existem no que refere ao Shorthorn de origem Irlandesa, assim como com a raça Lincoln Red como um todo.

O Shorthorn irlandês foi admitido no livro de registro genealógico inglês na década de 1970. Naqueles dias, o Ministério da Agricultura da Irlanda promoveu um programa para incentivar o melhoramento dos rebanhos de corte, através da eleição dos melhores animais Shorthorn, assim escolhidos por seleção visual. Vários rebanhos foram assim aceitos, elegendo-se os animais com selo racial característico e com o fenótipo procurado.

Sendo aquela uma época de transição no mercado de carne americano, o que conseqüentemente gerou uma nova mudança de tipo animal, passou-se a procurar animais de maior estatura e com mais peso de carcaça. O Shorthorn da Irlanda, juntamente com a linhagem leiteira da raça, já existente há décadas, foi escolhido como a bola da vez, tanto nos Estados Unidos como no Canadá, para aumentar rapidamente o tamanho dos animais. Dentre os irlandeses, o rebanho Deerpark foi o principal fornecedor de touros e ventres para o mercado norte americano. Todos os outros países seguiram a moda e passaram a buscar genética nos Estados Unidos da América.

Não entraremos no mérito sobre se aquelas importações foram ou não um fato mercadológico de ocasião. A verdade é que a primeira introdução de genética irlandesa nos Estados Unidos, não se deveu a um grupo de criadores, mas, apenas a um único, que deve ter vislumbrado a possibilidade de vantagem comercial, sem se preocupar com a origem nem com o efeito que poderiam acarretar mediante a possibilidade de introduzir genes estranhos à raça. De nosso ponto de vista, é uma pena que outros criadores tenham seguido aquele exemplo e tenham, também, contribuído para descaracterizar a raça, tanto genética como fenotípicamente.

Sabe-se que existem criadores norte-americanos que não são seguidores  muito fiéis de pureza racial, embora registrem seus animais como Puros de Origem. Isto se comprova pelo que estão fazendo com as raças continentais. Algumas delas possuem, hoje, mais animais de cor negra do que com as pelagens originais, como se, mudando-se a pelagem, fosse possível mudar todas as características intrínsecas daquela raça, tais como precocidade, qualidade de carne, prolificidade etc.

Em vista disso, queremos ter certeza de que os animais “Irish” são realmente puros, mesmo que sem registro genealógico antes de 1970. O mesmo pode ser dito a respeito do Lincoln Red, que muitas pessoas dizem ser uma variedade de Shorthorn. No entanto, o Lincoln Red teve infusão de Aberdeen Angus, com suas variedades preta e vermelha, na década de 40 e 50. Isto ocorreu na Inglaterra para fixar o caráter mocho na raça, e hoje muitos dos Lincoln Red apresentam cruzas de Limousin, Charolês, Maine Anjou, Chianina e Romagnola para diminuir a gordura de cobertura de sua carcaça. Mas estes animais são facilmente identificáveis hoje em dia através do pedigree.

A diversidade genética em raças bovinas é tipicamente distinta em dois componentes: diferenças genéticas entre raças e diferenças genéticas entre indivíduos dentro de uma mesma raça. O conhecido vigor híbrido, ou heterose, pode ser obtido tanto entre raças, por meio de cruzamentos, como entre animais de uma mesma raça, através de diferentes linhagens separadas há muitos anos.

A análise filogenética serve para mensurar a diversidade genética, introgressão racial e relação racial entre diferentes raças. Esta mensuração é feita através de marcadores moleculares, que são um caminho potencial para a identificação da raça da qual um determinado indivíduo se origina, quando não existe a informação do pedigree ou, quando existente, pode ser duvidosa.

A distância genética (Dn) é medida por microssatélites, onde a maior heterozigose dos “locis” indica um maior distanciamento genético entre raças ou indivíduos. Simplificando, um animal da raça Nelore apresenta Dn 0.879 em relação ao Shorthorn e Dn 0.123 em relação ao Brahman. No entanto, em algumas vezes, raças que são próximas geograficamente e tidas como geneticamente iguais ou com origem ancestral comum, não apresentam um vínculo genético óbvio, de forma que raças encontradas em uma mesma região podem ter formação genética diferentes.

Um estudo efetuado no Roslim Institute, na Escócia, usando amostras de sangue de raças britânicas, Aberdeen Angus, Hereford, Highland, Jersey, Guernsey, Dexter, Holandês e Ayrshire, pressupôs que os resultados obtidos poderiam refletir a proximidade geográfica das raças com grupos distintos de raças escocesas (Aberdeen Angus, Highland e Ayrshire) e outro grupo de raças das Ilhas do Canal da Mancha (Jersey e Guernsey), mas o que ocorreu mostrou que o Hereford é mais próximo geneticamente ao Highland. Esta relação poderia refletir a longa história do Highland no Reino Unido ou uma possível origem comum entre estas duas raças. O fator cruzamento é improvável, devido à exótica aparência do Highland.

Outra surpresa foi a relação entre o Ayrshire e o Holandês. Embora recentemente a introgressão ou infusão de sangue Holandês Vermelho esteja ocorrendo no Ayrshire, os animais usados no experimento são sabidamente livres de cruzamento. Então, a relação entre as raças sugere um fato histórico que foi o uso de bovinos Holando-Flamengo durante o século XVIII para melhorar as qualidades leiteiras do Ayrshire. Isso demonstra que, mesmo uma infusão ocorrida a mais de 200 anos, é detectada através da análise filogenética.

A integridade racial mostra a provável proporção entre a semelhança de um animal escolhido de uma raça com os escolhidos das outras raças estudadas. Isto significa que uma raça que apresenta um valor elevado 0.921, como a Highland, apresenta maior pureza que outra com valor de 0.726, como o Ayrshire, que está tendo retrocruzamentos com Holandês Vermelho em anos recentes.

Alguns programas de computação, específicos para análise de DNA, conseguem estimar o tempo de divergência, ou seja, indicam o número de gerações a partir de quando uma determinada raça se separou de outra. Um estudo sobre raças escandinavas sugere que o Icelandic divergiu do tronco que originou o Jersey Dinamarquês, em torno de 857 gerações atrás. Presumindo que o intervalo entre gerações é de 5 a 6 anos, isto ocorreu ao redor de 4.200 a 5.100 anos atrás. O intervalo de confiança aponta para uma margem de segurança de 95% de que isto ocorreu entre 4.000 e 5.500 anos atrás. Por outro lado, o mesmo Icelandic divergiu do Blacksided Trondein and Nordland, raça de origem norueguesa, ao redor de 221 gerações atrás, ou seja, a 1.100 a 1.326 anos. A raça Icelandic é descendente provável de animais de origem norueguesa, que foram levados para a Islândia pelos Vikings entre os anos de 874 d.C. e 930 d.C. Estudos prévios indicam que estes dados são corretos, pois informações recentemente pesquisadas indicam que os animais transportados para a Islândia ali chegaram de varias áreas, onde atualmente ocorre o Blacksided Trondein and Nordland. Para corroborar o fato, documentos históricos estimam a separação entre as duas raças ao redor de 1.100 e 1.300 anos atrás. Confirmando com grande exatidão as datas estimadas através da análise de DNA.

As principais formas de apresentação de resultados na análise filogenética se dão por três maneiras principais.

- Heterozigose dos marcadores de DNA, sejam proteínas específicas ou microssatélites, onde o menor valor (0.001) representa uma correlação genética maior e o maior valor (0.999) representa uma distância genética maior.

- Arvore filogenética: Locação gráfica em forma de árvore, onde as raças correlacionadas estão localizadas em ramos iguais.

- Plotagem genética: é a transcrição gráfica dos resultados locados espacialmente na forma de um quadrado, onde as raças aparentadas ou correlacionadas, localizam-se proximamente umas das outras e animais com sangue ou genes de duas ou mais raças se localizam próximos às raças que o compõem.

Como nós, da Cabanha Santa Isabel, tivemos a oportunidade de enviar amostras de sangue de todo nosso rebanho PO e PC para análise de freqüência do gene da maciez, aproveitamos para fazer também uma análise filogenética daquelas mesmas amostras. Até onde sabemos, somos pioneiros neste estudo, no Brasil, para um rebanho particular. Sabemos que tal análise vem sendo feita para selecionar animais de raças crioulas (Caracu, Crioulo Lageano, Franqueiro, Ovelha Lanada, porco Piau, porco Tatu) para os programas de preservação de germoplasma, da Embrapa-Cenargen.

Nossa intenção é tentar verificar se dois animais Shorthorn PO de nosso rebanho, que apresentam pedigree puro, confirmam os dados de suas genealogias. Para tanto, enviamos sêmen de vários touros, os quais são confiadamente puros, que irão servir de amostra testemunha nessa análise. Aproveitamos, também, para enviar amostras de animais com genealogia de “Irish” e Lincoln Red, para a determinação de seus perfis genéticos. Para tanto, enviamos amostras do sêmen de touros com estas genealogias.

Também enviamos para análise amostras de sêmen de reprodutores das raças Lincoln Red, Devon, Aberdeen Angus, Hereford, Belted Galloway e Highland, a fim de estabelecer as necessárias comparações com os Shorthorn. Com o objetivo de garantir que os resultados obtidos sejam confiáveis, as doses de sêmen enviadas pertencem a touros dessas raças, que são sabidamente puros em sua composição racial, a fim de comparar com touros de ascendência genética não totalmente confiável, das raças Angus, Hereford e Devon.

Ainda estamos aguardando os resultados, para sabermos o que ocorreu em nossa raça, caso a mistura genética que está ocorrendo no Shorthorn e mesmo em outras raças tenha mudado o perfil genético das mesmas. No Aberdeen Angus, por exemplo, o perfil fenotípico já mudou a mais de 15 anos. Isto ocorreu após a introdução de animais de um famoso rebanho norte-americano. Hoje se vêem indivíduos dessa raça com manchas brancas em locais estranhos. Quem sabe a Associação de Angus resolva mudar o padrão da raça para preto/ vermelho pouco branco.

Mesmo o Shorthorn não escapou desta mudança fenotípica, pois animais de pelagem vermelha e branca são hoje muito comuns em nossos rebanhos, sendo que alguns exemplares têm tanto branco no corpo que parecem mais holandeses do que Shorthorn. O mesmo ocorre com as faces secas e descarnadas. Já que mencionamos o fator descarnado, este mesmo, infelizmente, ocorre nos quartos traseiros de nossa raça, um fator claramente depreciativo mercadologicamente falando.

É evidente que os resultados do estudo que estamos fazendo não nos permitem mudar o que ocorreu, mas nos fornece uma excelente ferramenta para evitar que isso se espalhe de tal maneira que venhamos a perder a identidade do Shorthorn atual como raça, assim como ocorreu com outros grupos raciais, especialmente nos Estados Unidos da América e no Canadá.

Adicionalmente, é sabido que a mistura genética afeta a performance dos animais. As DEP’s são ferramentas muito utilizadas hoje para a seleção de reprodutores e para a compra de sêmen, porém uma pergunta se impõe: as DEP’s para crescimento e ganho de peso, que determinados animais apresentam, são realmente fruto do vigor híbrido ou de merecimento próprio através do melhoramento genético aditivo de raças puras?

Quando vemos nos catálogos de venda de sêmen touros com excelente ganho na desmama e pós desmama e olhamos para a figura do touro em si, que mais parecem Simental ou Gelbvieh do que animais puros, então nos perguntamos se estes ganhos ao desmame são deles próprios ou provêm das mães, que têm em sua composição alguma porcentagem Simental/Gelbvieh, raças que são ótimas produtoras de leite. A mesma reflexão pode ser feita com relação aos ganhos pós desmama, que também podem ter influência de quaisquer raças continentais, sabidamente ótimos ganhadoras de peso.

Mais uma vez, pode-se dizer que o que está feito não tem como mudar, mas estamos cansados de comprar gato por lebre, através de embustes genéticos de alguns criadores que não são sérios, assim como de empresas de sêmen, para as quais o que vale é vender e, para isso, contam histórias mirabolantes sobre o desempenho de determinados touros que, na verdade, têm aquela performance somente por serem mestiços e, em razão isso, apresentam uma heterozigose realmente alta.

Acreditamos que cada criador deva seguir o rumo que desejar ou que acredita ser o mais correto, respeitando a linha de seleção percorrida por outros. No entanto, não admitimos que, após usar um determinado animal, venhamos a descobrir que fomos enganados e, como conseqüência, venhamos a perder uma linhagem, que, nos mais das vezes, é única hoje em dia.

Sabemos que este assunto é delicado e certamente muitos criadores se manifestarão contrários ao que aqui expusemos, mas é preciso perceber que os tempos mudaram e que hoje existem muitas possibilidades mercadológicas as quais podem guiar a seleção de uma ou outra raça. De nossa parte, como enfatizamos anteriormente, estamos estudando os animais de nossa propriedade e, em conseqüência disso, o caminho genético que seguiremos será único. O objetivo que nos guia é somente ter as coisas às claras e, com o auxílio dos exames de DNA, essa ferramenta poderosa que está à disposição de todos os interessados, com certeza, muita coisa ficará exposta, o que poderá acarretar surpresas para muitos criadores.

Esperamos, com isso, que a honestidade existente por parte dos criadores sérios se perpetue no gado registrado, que ela retorne nos rebanhos aonde foi descuidada e que o trabalho efetuado séculos atrás, com a criação de livros de registro, que têm como objetivo manter a crônica genética da raça seja honrado, a fim de que um “Herd-Book” tenha reais motivos para existir.

A Cabanha Santa Isabel tem em mãos uma genética diferenciada neste aspecto. Acreditamos que, muito em breve, este tipo animal, com tal estrutura genética, desfrutará de um valor agregado, devido às suas características raciais. Acreditamos que criar gado puro registrado tem um pouco de poesia e paixão, para poder compensar a pouca remuneração e apenas os que acreditam em um objetivo, seja ele qual for, conseguem manter a atividade com renovada vontade a cada dia.

Sabemos que nos Estados Unidos e no Reino Unido alguns criadores, muitos deles com mais de 70 anos de idade, mantêm sozinhos rebanhos 100% puros. Estas pessoas acreditaram em um objetivo, durante uma vida inteira, e protegem seus animais geneticamente puros, até o final de seus últimos dias. Não desejamos nos comparar a eles, mas queremos usar suas idéias e atitudes, a fim de seguir seus passos e preservar linhagens que estão entre nós a dezenas de anos, fazendo isso através da continuação do trabalho árduo de criadores que desejaram perpetuar uma raça, por suas inegáveis e reconhecidas qualidades genéticas e, assim, deixar uma herança para as gerações futuras.

Somos hoje mais uma peça neste tabuleiro e tentaremos honrar os sonhos de criadores anônimos, que há muito tempo se foram, assim como manter viva a idéia de pessoas como George Coates, fundador do primeiro registro genealógico para bovinos em 1822, na Inglaterra, para a raça Shorthorn e Leonardo Brasil Collares, fundador do primeiro livro de registro genealógico no Brasil, os quais acreditaram na seleção de animais de raças puras e fundaram livros de registro para dar confiabilidade à seleção e ao melhoramento genético bovino.

Nosso objetivo é preservar estas linhagens especiais para que, caso venham a ter importância para a pecuária futura, possam ser usadas e recuperadas. Nosso cuidado e preocupação se justificam plenamente, pois caso essas raças venham a sumir de nossos campos, não teremos como mais como trilhar um caminho de volta, pois a EXTINÇÃO É PARA SEMPRE!

 

Engº Agrº Jean Pierre Martins Machado
Vice-Presidente da Associação Brasileira de Criadores de Shorthorn e Lincoln Red
(53) 8406 2278

"Publicado em 18 de julho de 2007."

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