Estudo da Caracterização da raça Shorthorn no Brasil

Sumário

O Shorthorn é a raça ou uma das raças bovinas de corte que mais contribuiu com seus genes para a formação e melhoramento de outras raças bovinas.

O apogeu da ocorreu nas primeiras décadas do século XX, nesta época, vários autores citaram e descreveram a raça. Porém, com o passar dos anos, a raça Shorthorn caiu em esquecimento, assim como, trabalhos científicos utilizando a raça se tornaram raros.

O conhecimento de uma raça, para seu uso apropriado, deve começar com o estudo de caracterização de seus indivíduos.

Posteriormente, a análise dos dados de caracterização, uma política de conservação e incentivo ao uso da raça será feito, baseada nos dados analisados.

Introdução

Ao longo da história da agricultura, vários indivíduos ao redor do mundo, tem dedicado as suas vidas ao cuidado e seleção de animais domésticos, procurando sempre chegar ao seu ideal de perfeição. Esta procura originou ao que chamamos de “raça”, isto é, indivíduos criados e selecionados para ter uma determinada aparência que o distinga de outros grupos de animais de uma mesma espécie e, que ao acasalar entre si, irão gerar indivíduos com o mesmo tipo, SPONENBERG e CHRISTMAN (1995).

Embora a raça Shorthorn seja tida como um animal exótico, não passível de uma política de conservação genética por parte dos órgãos conservacionistas oficiais no Brasil em nossa atualidade, em detrimento de raças bovinas mais antigas, as quais também foram introduzidas e, portanto, exóticas ao nosso ambiente, diferindo-se apenas uma das outras pela época de introdução em nosso país.

Devemos lembrar que o Shorthorn chegou ao Brasil a mais de 150 anos, sendo a primeira raça bovina aperfeiçoada pelo homem através de métodos sistemáticos de acasalamento de indivíduos a chegar neste país, além do fato de haver contribuído para a formação de mais de 40 raças bovinas diferentes ao redor do mundo, FELIUS (1985); MASON (1988); PORTER (1991); FISHER (1993) e SANTOS (1999).

A raça Shorthorn é conhecida no mundo todo, sendo originário do Nordeste da Inglaterra, foi difundida para todos os tipos de ambientes do globo. Atualmente, não existe interesse em um trabalho de conservação da raça Shorthorn no Brasil, embora seus números de registro genealógico e criadores envolvidos em sua seleção venham decrescendo a mais de uma década. Fator relevante para o estudo de caracterização e conservação da raça, é a infusão de raças congêneres ao Shorthorn nos Estados Unidos e na Inglaterra, as quais vem afetando a pureza racial e diminuindo significativamente o número de animais geneticamente puros, ALDERSON (1994).

Este trabalho tem por objetivo descrever resultados iniciais obtidos junto à entidade detentora do registro genealógico da raça Shorthorn no Brasil, Associação Nacional de Criadores Herd Book Collares. Os resultados aqui descritos, são referentes ao livro de animais Puros de Origem (PO) do registro genealógico brasileiro nos últimos 12 anos. Nesta análise, estão contidos dados de parte da população total, visto que a raça Shorthorn é registrada no Brasil desde o ano de 1906.

Uma análise posterior será feita em toda a população, a qual é de aproximadamente 27.500 animais. Trabalhos de análise subseqüentes estão sendo preparados para a verificação do coeficiente de inbreeding; observação de como este inbreeding esta afetando as características reprodutivas e produtivas; determinar a influencia de raças congêneres no Shorthorn brasileiro através da análise de pedigrees e, possivelmente por comparação de DNA.

 

Formação da raça e sua introdução no Brasil

FISHER (1993), cita que o Shorthorn é uma raça landrace, isto é, foi um tipo de animal doméstico desenvolvido em uma determinada área, e não o resultado de um cruzamento deliberado para criar uma raça bovina. Esta definição de raça landrace, citada por FISHER (1993) é vaga, sendo melhor definida por SPONENBERG e CHRISTMAN (1995), que definem raça landrace, como populações locais de animais suficientemente consistentes para serem considerados como raças, mas são mais variáveis em sua aparência do que as raças estandarizadas. Também, sofreram uma combinação de seleção natural e humana para a sua forma final.

O local de origem da raça é ponto unânime entre todos os autores que se dedicaram a escrever sobre a raça. A região Nordeste da Inglaterra, a qual compreende os condados de Northumberland, Durham e Yorkshire ao longo das margens do rio Tees é dita berço das raças que formaram o Shorthorn em meados do século XVII, SINCLAIR (1911); BRIGGS (1949); FRENCH (1968); PORTER (1991) e FISHER (1993).

Fator de discordância entre os vários autores pesquisados, é referente aos tipos raciais que originaram o gado Shorthorn melhorado. FRENCH (1968), cita que a raça Shorthorn evoluiu a partir de antigas populações bovinas do nordeste da Inglaterra, denominadas de Durham, Teeswater, Yorkshire e Holderness, os quais foram cruzados com animais importados da Holanda no século XVIII.

Esta união de tipos raciais e a importação de animais holandeses são citada por outros autores, porem dados adicionais são acrescentados por PORTER (1991), descrevendo que o Duque de Northumberland, durante o século XVI criava uma mistura de bovinos vermelhos saxões com bovinos vermelho e branco “Hollanders” criados na Holanda, este animal não se assemelhava ao atual tipo leiteiro Holstein encontrado atualmente em todo o mundo, mas a um tipo antigo de bovino que foi totalmente devastado pela grande praga bovina de 1745. Durante o século XVIII, o Tyneside Shorthorn, semelhante ao Ayrshire, foi também incluído ao tipo antigo de gado encontrado na região, posteriormente Teeswater e Durham foram adicionados, terminando assim o tipo original de gado da região. Após o inicio do processo de seleção sistemática feita pelos Irmãos Collings, Charles Colling introduziu um touro meio sangue Galloway de pelagem vermelha em seu plantel. FISHER (1993), cita que o rebanho do Duque de Northumberland era composto por animais landraces a mais de 200 anos antes da data citada por PORTER (1991).

FISHER (1993), diz que o gado existente em Yorkshire era predominantemente negro e aspado, mas animais malhados com partes brancas e animais vermelhos ocorriam na região. O autor, também cita que durante a formação do Shorthorn foram usados animais da propriedade da Família Aislaby, os quais criavam um tipo de Shorthorn obtido dos monastérios de Fontains Abbey. É sabido que os animais criados nos monastérios eram descendentes do bovino selvagem de pelagem branca, sendo portanto os antepassados da atual raça White Park. O cruzamento do gado de pelagem vermelha prevalecia no rio Tees e que ao serem cruzados com os animais brancos do Duque de Northumberland e da Família Aislaby, originavam belos animais rosilhos. A infusão de sangue Galloway é citada, cita-se que outro selecionador famoso, Thomas Bates, era contrario ao uso de Galloway na raça em formação e, que o famoso touro Hubback, um dos pilares da raça Shorthorn melhorada descende de sangue “Alloy” ou Galloway.

SINCLAIR (1911), relata que os bovinos domésticos se originaram do Bos primigenius ou Auroque e do Bos longifrons ou Celta de Chifres Curtos. Acredita-se que o Auroque existia apenas em estado selvagem nas Ilhas Britânicas, enquanto que o Shorthorn Celta foi domesticado pelos antigos bretões.

Durante a invasão Romana no século 55 A.C., as Legiões trouxeram bovinos do continente e, estes animais cruzaram com os bovinos Celtas que ficaram abandonados durante a fuga dos habitantes da antiga Inglaterra que procuraram refugio nas regiões remotas e montanhosas do norte, um descendente atual deste antigo bovino celta é a raça West Highland das montanhas escocesas. Posteriores invasões Vikings, Dinamarquesas e Holandesas trouxeram bovinos que ajudaram a formar o gado da região do rio Tees. Portanto, para SINCLAIR (1911), o Shorthorn melhorado tem sangue destes tipos bovinos introduzidos, sangue do tipo celta, bovinos brancos antepassado dos White Parks atuais e Galloway infusionado por Charles Colling.

Este tipo animal foi a base do rebanho que os irmãos Charles e Robert Colling usaram para a formação da raça Shorthorn melhorada. Segundo, SINCLAIR (1911), os irmãos Colling usaram um processo de inbreeding acentuado, idéia retirada de uma visita a Bakewell, pioneiro em usar este tipo de sistema de acasalamento consangüíneo e formador da raça Longhorn britânica, em 1783. A raça se tornou famosa nesta época, por sua qualidade de carne e rápido engorde, além de boas qualidades leiteiras, se espalhando por grande parte da Inglaterra. Ate então, a raça era de dupla aptidão, porem os irmãos Booth a selecionaram para carne enquanto que Thomas Bates preferiu o caráter leiteiro, seguindo a dupla funcionalidade da raça. FRENCH (1968), cita também o rebanho de Amos Cruickshank , criador escocês que selecionou animais de grande importância à raça.

TOCAGNI (1980), relata que o primeiro touro Shorthorn foi importado para a América do Sul, vindo para a Argentina, por volta de 1823, para a propriedade de John Miller, este animal era um touro chamado “Tarquino”. No Uruguai as primeiras importações datam de 1859, com animais oriundos diretamente da Inglaterra, LAURNAGA (1994).

Não se sabe a data exata da introdução de animais da raça Shorthorn no Brasil, mas acreditamos que esta ocorreu poucos anos após a entrada da raça na Argentina e Uruguai. Sabemos com certeza, que o primeiro animal Shorthorn a ser inscrito no Herd Book brasileiro, foi um touro vermelho chamado “Count Barrington”, nascido em 1897 e registrado em 1906, com procedência da Inglaterra.

A partir de então a raça teve gradual aumento de seus números de registros, com seu apogeu na década de 60 e 70. Após esta data, o número de animais registrados se estabilizou e, na década de 80 começou a decrescer. A raça sempre se concentrou no estado do Rio Grande do Sul, região mais setentrional do Brasil.

O Shorthorn perdeu espaço para as raças continentais que davam animais mais pesados ao abate, principalmente devido ao vigor híbrido e ao leite das vacas Shorthorn. Tentando evitar esta perda de mercado, os criadores optaram por abrir o livro de registro genealógico para as raças Maine Anjou e Lincoln Red, sendo que o Lincoln Red foi maciçamente usado a partir de 1975 ate meados de 1985.

Pode-se dizer que hoje toda a raça Shorthorn criada no Brasil tem alguma porcentagem de sangue Lincoln Red, com exceção de aproximadamente 50 animais pertencentes ao Dr. Paulo Brossard de Souza Pinto, criador no município de Bagé - RS. A abertura dos livros de registro genealógico para a raça Lincoln Red, ocorreu também na Argentina e Uruguai. Segundo os estatutos de registro genealógico da American Shorthorn Association, o registro de animais que tenham porcentagem de sangue de raças similares ao Shorthorn são admitidas em um Livro de Apêndice ao livro de registro de animais puros, porem, estes animais registrados no Livro de Apêndice são admitidos nos registros de animais puros a partir de 15/16 partes de sangue Shorthorn. Raças como Lincoln Red, Maine Anjou, Illawarra Shorthorn (Shorthorn + Devon + Ayrshire), Wee Bolla Bolla Shorthorn, Brahorn ( F1 Brahman-Shorthorn), Milking Shorthorn e Red White Holstein, são tidas como similares ao Shorthorn.

ALDERSON (1994), cita que a Inglaterra também abriu seu registro genealógico para animais Maine Anjou para atender as demandas do mercado inglês, colocando em risco a pureza da raça. Para tanto, existe uma estocagem de doses de sêmen de touros tidos como puros com a finalidade de conservar a raça, Alderson, um dos fundadores e diretor do Rare Breeds Survival Trust e do Rare Breeds International, também tem o Lincoln Red como uma raça separada ao Shorthorn.

No Brasil, os criadores alegam a abertura do livro de registro genealógico de animais puros de origem, ocorrido entre 1975 e 1987, para que a raça aumentasse seu tamanho corporal, refrescar o sangue da raça e, fixar os caracteres mochos e a pelagem vermelha a qual é muito desejada hoje pelo mercado de reprodutores. FISHER (1993) confirma que o Lincoln Red foi mochado em 1939, com sangue Aberdeen Angus.

O Shorthorn tem características produtivas e reprodutivas que são inerentes, CUNDIFF et al. (1993), mostra que a raça tem 99,9 % de facilidade de parto, alem de elevada taxa de sobrevivência, elevada porcentagem de puberdade expressa em determinado período de tempo, excelente marmoreio na carne, maciez, área de olho de lombo, permanecendo sempre nas primeiras colocações nos estudos realizados. A inclusão do Shorthorn no programa de avaliação de germoplasma animal do Clay Center ocorreu em 1985 com o uso de 25 touros, sendo que destes, apenas 4 touros estavam inscritos no Livro de Apêndice da American Shorthorn Association, demonstrando que os resultados obtidos com a raça Shorthorn são inerentes à própria raça e não decorrentes do uso de raças congêneres. O Shorthorn tem também ótimo temperamento, excelente ganho de peso, habilidade materna excepcional e uma produção leiteira elevada, sendo portanto uma ótima opção para uso em rebanhos comerciais.


Materiais e métodos

Os dados utilizados para a analise inicial, foram obtidos na Associação Nacional de Criadores Herd Book Collares, a qual é detentora do registro genealógico da raça desde 1906. Foram utilizados dados de registro genealógico de animais Puros de Origem (PO) e, um segundo arquivo de dados para os animais usados em inseminação artificial, Lincoln Red e Maine Anjou, bem como seus antepassados. Os dados do segundo arquivo foram digitados usando os mesmos moldes dos arquivos obtidos junto a ANC Collares. Utilizamos 2518 registros PO e 190 registros de IA.

Os arquivos usados contem os dados de pedigree de cada animal individualmente, descrevendo o número de registro genealógico de cada animal, nome do animal, número de tatuagem, sexo, nome dos pais, número de registro dos pais, número de registro e nome do avô materno, cor de pelagem, presença ou ausência de chifres, data de nascimento, criador e proprietário atual.

Para a analise dos dados se usou o programa Statystical Analyses System (SAS), sendo elaborada uma matriz estatística própria para esta analise.


Resultados

Os dados foram analisados em dois arquivos separados, portanto, os resultados obtidos serão aqui descritos da mesma forma.

Sexo

O arquivo onde estão contidos os dados de registro genealógico, contem 2518 registros, observamos que 1520 animais eram fêmeas e 998 animais eram machos, respectivamente 60,36% e 39,64%. Estes números mostram que a escolha por fêmeas para efeito de registro se deve ao fato de que estas são usadas para reposição de planteis, enquanto que os machos, recebem uma pré-seleção, sendo inscritos apenas os machos superiores em tipo ou genealogia. No arquivo referente aos animais de IA ocorre o contrario, onde de um total de 190 animais, 67 animais são fêmeas e 123 são machos, respectivamente 35,26% e 64,74%, isto deve se ao fato de que 55 animais machos eram os reprodutores usados em IA.

Todos partem do principio de que a probabilidade de nascerem machos e fêmeas e igual, isto é, 50% para cada sexo. Mas é sabido de que certos reprodutores tendem a gerar mais um sexo do que outro, porem, nada esta definido quanto a isto.

Em animais que colocam ovos no solo, tal como os répteis, a determinação do sexo ocorre pela temperatura e umidade do solo. MACHADO (1943) cita que ao examinarmos as estatísticas dos sexos dos animais em diversas espécies e no homem, verifica-se uma ligeira preponderância numérica do sexo masculino, citando uma correlação de 104,6 machos para cada 100 fêmeas na espécie bovina.

Os dados de freqüência referentes a sexo não podem ser tidos como reais, pois, ocorre uma pré-seleção neste caso. Portanto as freqüências referentes a sexo são apenas ilustrativas neste trabalho.

Touros pais

Dos 2518 registros avaliados, 1364 animais ou 54,17% são progênie de animais nacionais ou nacionalizados e, 1154 animais ou 45,83% são progênie de touros importados, oriundos de sêmen importado.

Os touros de IA mais usados são HS Instant Enticer, um touro americano e Stonelea Winchester um touro canadense. Estes dois animais foram e ainda estão sendo muito usados nos rebanhos brasileiros, e sua genética continua sendo disseminada através de seus muitos filhos.

Tabela 1 - Reprodutores importados com maior influencia no rebanho brasileiro.

Touro

Filhos

% de participação no rebanho

HS Instant Enticer

151

14,7

Stonelea Winchester

124

12,1

Deer Trail Goliath

98

9,5

RPS Tribune 82

88

8,6

Winalot Big Mac

85

8.2

Dentre os reprodutores nacionais ou nacionalizados usados em inseminação artificial e/ou monta natural, os touros de maior influencia foram Leave Trasumante 168, um rosilho importado da Argentina e Rincão Alegre Inca Union 888, um neto de Lincoln Red.

Tabela 2 - Reprodutores nacionais ou nacionalizados de maior influencia no rebanho brasileiro.

Touro

Filhos

% de participação no rebanho

Leave Trasumante 168

483

35,4

Rincão Alegre Inca Union 888

73

5,35

Inca Union 2

65

4,76

Ibirocai Grow Up 150

62

4,54

Austin S4 ET

36

2.64


Nesta pequena população de touros pais, gostaríamos de ressaltar que o touro nacionalizado mais usado, Leave Trasumante 168 é filho de RPS Tribune 82 e que Rincão Alegre Inca Union 888 é filho de Inca Union 2. A contribuição genética destes touros nos registros genealógicos é hoje, bem maior, visto que alguns deles ainda são muito usados, bem como as suas progênies.

Com o estudo da freqüência de reprodutores machos mais intensamente usados, pode-se também detectar o grau de uso de reprodutores Lincoln Red e Maine Anjou no rebanho. Foram encontrados 58 animais que são produtos de Lincoln Red e 6 produtos de Maine Anjou, respectivamente 5,3% e 0,54%. É uma porcentagem baixa de animais com este sangue, se levarmos em conta que foram analisados 2518 registros. Porem, devemos ressaltar que o maior uso destas duas raças ocorreu entre 1975 e 1983, totalizando quase que 100% de uso nesta época, seja em inseminação artificial como em monta natural. A raça Lincoln Red foi usada em numero muito superior do que o Maine Anjou.



Pelagem


Nos dados referentes aos animais registrados no Herd Book brasileiro, a pelagem predominante foi o vermelho, seguido do vermelho e branco. Acredita-se que a ocorrência de animais vermelhos com pequenas manchas brancas tendem a aumentar em anos futuros, devido a preferência por parte dos criadores em selecionar animais vermelhos ou que tenham esta cor predominante.

Tabela 3 - Freqüências de pelagens encontradas em animais registrados no Brasil.

Pelagem

Porcentagem

Branco

88

3,5

Rosilho

662

26,3

Vermelho

941

37,3

Vermelho e Branco

751

29,8

Vermelho pouco Branco

72

2,85

 

Tabela 4 - Freqüências de pelagens encontradas em animais usados em inseminação artificial.

Pelagem

Porcentagem

Branco

6

3,16

Rosilho

38

20,0

Vermelho

84

44,21

Vermelho e Branco

15

7,89

Vermelho pouco Branco

5

2,65

Nos dois arquivos de dados analisados, houveram animais que não tinham pelagem descrita, sendo que dos 2.518 registros apenas 4 (0,16%) não apresentavam dado correto quanto a pelagem, certamente por erro de digitação. Nos dados referentes aos animais de inseminação artificial, estão incluídos animais Lincoln Red, Maine Anjou e animais Shorthorn oriundos do Reino Unido nos quais não constava registro algum quanto à pelagem do animal. O programa de registro do Herd Book brasileiro, requer definição de pelagem apenas para a raça Shorthorn e Aberdeen Angus, as outras raças são tidas como pelagem única, portanto os animais Lincoln Red foram colocados junto aos animais de pelagem vermelha. Dos 190 registros, 42 animais não tinham definição de pelagem.

A origem genética das pelagens que podem ocorrer na raça Shorthorn já foram descritas na introdução deste trabalho. A predominância de animais com pelagem vermelha tanto nos animais registrados no Herd Book brasileiro como nos animais usados como reprodutores em inseminação artificial era previsível, pois é notória a preferência e seleção de animais desta coloração em toda a historia da raça Shorthorn devido a estética do rebanho e mais recentemente a grande procura por raças vermelhas no Brasil para uso em cruzamentos.

Os outros padrões de pelagem menos preferidos como o branco e menos intensamente o rosilho continuam a aparecer nos rebanhos ate hoje, devido ao fato de que o Shorthorn apresenta uma co-dominância para o caráter pelagem, pois ao acasalarmos dois animais vermelhos, uma pequena proporção de indivíduos nascerá rosilha e, ao serem acasalados animais de pelagem vermelha e rosilha, pelo menos 3% dos indivíduos nascerá com a pelagem branca, INCHAUSTI (1946).

O aparecimento de animais brancos esta condicionado a pelagem rosilha e como muitos criadores comerciais ainda preferem esta pelagem por acharem que são animais de melhor conformação, esta preferência tem certa fundamentação, pois na historia da raça Shorthorn muitos dos famosos touros raçadores e formadores da raça eram rosilhos em sua grande maioria.

Esta seleção por um caráter qualitativo como a pelagem, em função de um mercado consumidor, o qual muda constantemente, pode ser prejudicial ao futuro da raça, visto que muitos reprodutores bons de pelagens não tão valorizadas atualmente pelo mercado, podem ser descartados enquanto que animais que tenham a pelagem desejada pelo mercado, mesmo que de qualidade inferior é deixado como reprodutor. Em raças que o pool genético é restrito, a erosão genética é mais acentuada.

Chifres

A raça Shorthorn é originalmente aspada, porem a procura por animais desprovidos de chifres é crescente. Nos 2.518 registros analisados, oriundos dos dados do Herd Book brasileiro, 1.354 animais eram mocho perfazendo um total de 53,77% e, 1.164 animais eram aspados totalizando 46,23% dos animais. Dentre estes 1.164 animais aspados, 1.138 apresentam um ou ambos pais mochos, isto é, o caráter mocho esta presente em 97,76% dos animais aspados, totalizando 98,96% de animais com caráter mocho em toda a raça Shorthorn.

Nos animais de inseminação artificial o mesmo ocorre. O caráter mocho ocorre em 108 animais, 56,84% e, 82 animais são aspados, 43,16%. Ressaltamos que os touros usados atualmente em inseminação artificial são todos mochos.

ROSA et al. (1996) relata que o gene mocho é dominante sobre o gene chifres em ambos os sexos.

BRIGGS (1949) diz que o caráter mocho para a raça Shorthorn tem duas supostas origens. A primeira chamada “single standard” ocorre em animais que são resultado do cruzamento de touros Shorthorn aspados com vacas Mulley durante o século XIX nos Estados Unidos, FISHER (1993) confirma que a raça Shorthorn esta sendo mochada através de cruzamento com o Lincoln Red, o qual foi mochado com uso de touros Aberdeen Angus.

A segunda origem para o aparecimento de animais mochos na raça Shorthorn pregado por BRIGGS (1949) é também correta, porem equivocada quanto ao tipo de origem do caráter. Esta é chamada de “double standard” a qual ocorreu na raça por uma mutação que ocorre em bovinos de tempos em tempos sem que houvesse cruzamento após a formação da raça. Acreditamos ser mais correto afirmar que o aparecimento de animais mochos em rebanhos aspados que estão registrados em livros fechados, sendo assim impossível o uso de raças mochas para efetuar o mochamento genético, ao atavismo. Este atavismo se deve a introdução de sangue Galloway infundido por Charles Colling durante os primeiros anos de formação da raça Shorthorn.


Discussão

A análise dos 2518 dados de pedigrees coletados junto a Associação Nacional de Criadores Herd Book Collares e dos 190 pedigrees oriundos dos animais usados para inseminação artificial, revelam que a raça Shorthorn esta se tornando mocha, visto que este caráter é dominante e, o uso intensivo de reprodutores mochos é total, portanto em poucas décadas, os animais portadores de chifres serão raros.

No que se refere ao caráter pelagem, embora o padrão vermelho seja preferível enquanto que o padrão branco seja desprezado por parte dos criadores, o uso de animais rosilhos o qual ainda tem alguma aceitabilidade no mercado e é tida por muitos como uma característica da raça Shorthorn, animais brancos continuarão a ocorrer durante muitos anos, pois bons reprodutores de padrão rosilho ocorrem com freqüência.

A dominância e freqüência de ocorrência das pelagens vermelho e branco e vermelho e pouco branco ainda são desconhecidas e, como o uso de sangue Maine Anjou e Holandês Vermelho e Branco está tornando vulto em alguns paises, a ocorrência destes padrões tende a aumentar e talvez venha a descaracterizar o famoso padrão rosilho do Shorthorn no futuro.

O principal resultado a ser abordado é a diminuição da variabilidade genética da raça Shorthorn no Brasil, através do uso maciço de alguns poucos reprodutores e que são aparentados entre si. Isto ocasiona uma erosão genética, que é prejudicial a raça, seja pelo inbreeding ou pela necessidade futura de um novo refrescamento de sangue com outras raças congêneres como o Maine Anjou, que tem elevada distocia e grande tamanho adulto, ocasionando uma impressão negativa em um pecuário que esta procurando justamente animais que tenham facilidade de parto, eficiência reprodutiva, tamanho moderado e precocidade de engorde. Esta infusão de genes exóticos, ocasionara a perda de genes únicos pertencentes a uma raça centenária e única como é a raça Shorthorn, que foi de suma importância para a historia da seleção e do melhoramento animal e, que ainda hoje se mantêm atualizada e com muito a oferecer ao circuito pecuário nacional e mundial.

Bibliografia consultada

ALDERSON, L. 1994. The Chance to Survive. pp. 56.

AMERICAN SHORTHORN ASSOCIATION. Membership Information Guide. pp. 3-12.

BRIGGS, H.M. 1949. Modern Breeds of Livestock. pp. 17-73.

CUNDIFF, L.V.; KOCH, R.M.; GREGORY, K.E.; CROUSE, J.D.; DIKEMAN, M.E. 1993. Characteristics of Diverse Breeds in Cycle IV of the Cattle Germplasm Evaluation Program. Beef Research Progress Report 4:57-60.

FELIUS, M. 1985. Genus Bos: Cattle Breeds of the World. pp. 17-18.

FISHER, O.L. 1993. Shorthorns Around the World. pp. 7-25; 81-84

FRENCH, M.H. 1968. Razas Europeas de Ganado Bovino. 1:178-188.

INCHAUSTI, D. & TAGLE. 1946. Bovinotecnia. Vol. I

LAURNAGA, H. 1994. Origen de la Raza Shorthorn la Mas Antigua de las Razas Vacunas. Shorthorn 50 Años. pp. 11-13.

MACHADO, D.P. 1943. Zootecnia. Vol. I. pp. 56-61

MASON, I.L. 1988. A World Dictionary of Breeds, Types and Varieties. 3rd; pp. 102.

PORTER, V. 1991. Cattle: A Handbook to the Breeds of the World. pp. 28-31; 54-57.

ROSA, A.N.; SILVA, L.O.C. da; PORTO, J.C.A. 1996. Raças Mochas: História e Genética. pp. 13-33.

SANTOS, R. 1999. Os Cruzamentos na Pecuária Tropical. pp. 518-521.

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SINCLAIR, J. 1911. Historia del Ganado Shorthorn. pp. 1-55.

SPONENBERG, P.; CHRISTMAN, C.J. 1995. A Conservation Breeding Handbook. pp. 5-27.

TOCAGNI, H. 1980. Bovinos Shorthorn. pp. 29-36.

 

Engº Agrº Jean Pierre Martins Machado
Vice-Presidente da Associação Brasileira de Criadores de Shorthorn e Lincoln Red
(53) 8406 2278

"Publicado em 24 de julho de 2007".

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