Consangüinidade na raça Shorthorn

O “inbreeding” ou consangüinidade como é conhecido o método de cruzamento que usa o acasalamento entre parentes, é prática usada na raça Shorthorn desde a sua origem nos fins do século XVIII.

Os pioneiros na formação e melhoramento do Shorthorn, Irmãos Charles e Robert Colling, Thomas Booth, Tomas Bates, entre outros, usaram estes cruzamentos estreitos entre parentes para fixar as características desejadas em seus rebanhos, inclusive produzindo animais de padrão extraordinário que marcaram a raça em sua época, escrevendo a história do Shorthorn. Um dos touros fundadores da raça, Comet (I.155), tinha coeficiente de “inbreeding” de 46,87%, e foi acasalado com várias de suas filhas, netas e bisnetas. Este é apenas um exemplo que usamos para mencionar o uso do “inbreeding” em nossa raça, mas, além de Comet, muitos outros touros e vacas apresentavam “inbreeding” elevado.

O uso da consangüinidade para formação e melhoramento de uma raça não é exclusiva do Shorthorn, o Aberdeen Angus, Hereford, Devon entre outras, também, fizeram uso desta ferramenta.

O “inbreeding” não é necessariamente indesejável, ele pode servir para fixar características desejáveis de algum macho ou fêmea que se sobrepõe em um rebanho. O problema em se usar esta ferramenta é que, assim como tudo na vida, existem dois lados e prejuízos podem ocorrer se não usarmos a consangüinidade de forma séria.

O uso de animais muito aparentados, isto é, com coeficiente de “inbreeding” elevados, em outros animais que também sejam aparentados, pode ocasionar o aparecimento de defeitos genéticos congênitos que estavam encobertos pela variabilidade genética do rebanho.

O “inbreeding” é o acasalamento de animais que são mais estreitamente relacionados, quando comparados à média da raça ou população. Quando isto ocorre de maneira desordenada e sem controle, pode ocorrer a diminuição da performance de um animal pela baixa produção de leite das fêmeas, diminuição do ganho de peso, diminuição do peso adulto, diminuição do vigor do animal causando maior mortalidade de terneiros, aparecimento de doenças com maior frequência no rebanho, diminuição da fertilidade geral dos animais. Isto ocorre devido à homozigose dos genes dentro da população, isto é, um maior número de animais com grande quantidade de genes iguais, causando, assim, a suscetibilidade de um maior número de animais a uma mesma enfermidade, propiciando o surgimento de doenças, ou, até, a morte de muitos animais do rebanho.

Porém, como comentamos anteriormente, a consangüinidade quando bem manejada e controlada, pode ocasionar grandes melhorias em um plantel, através do uso estreito de um determinado touro que tenha características desejáveis e que se deseja incorporá-las ao rebanho. O uso do “inbreeding” aumentará a proporção destes genes ou características desejadas nos animais do rebanho, deixando assim, a população em questão semelhante ao animal desejado.

Particularmente, temos alguns ventres que achamos ter um padrão zootécnico perto do ideal e, assim, usaremos uma consangüinidade em linha, “linebreeding”, para padronizar os futuros produtos destes ventres. Usaremos os touros que tenham antepassados recentes semelhantes aos ventres escolhidos. Por exemplo, usaremos em vacas filhas de Leave Trasumante ou Mr. Gus 80C, touros filhos destes reprodutores e assim por diante, com refrescamentos de sangue periódicos e após retornando à linha desejada.

Estaremos desta forma, aumentando a quantidade de genes destes reprodutores em nosso plantel, cautelosamente, evitando degenerações.

Com o uso do programa estatístico da Universidade da Carolina do Norte, calculamos o inbreeding de todos os animais registrados na ANC Herd Book Collares, o resultado médio está descrito na tabela abaixo.

Médias de consangüinidade do rebanho Shorthorn no Brasil

 

Consangüinidade

Consangüinidade ancestral

Machos

0,0168

0,0017

Fêmeas

0,0157

0,0013

Média Total

0,0162

0,0015

A consangüinidade citada na 2ª coluna é a encontrada atualmente em todo o rebanho. Podemos ver que os valores estão divididos para machos, fêmeas e total, pois o programa nos possibilita calcular separando por sexo e fazendo a média total. A consangüinidade ancestral é determinada pelo cálculo de parentesco dos pais dos animais da última geração.

Desta forma, podemos observar que os níveis aumentaram rapidamente nesta última geração de animais nascidos. Tínhamos uma média geral de 0,15% e passamos a 1,62%. Pode parecer pouco, mas temos que levar em conta que este cálculo usa todos os registros desde 1906. Isto nos mostra que nesta última geração o “inbreeding” médio foi enorme.

Podemos notar que a consangüinidade sempre foi comum ao rebanho Shorthorn brasileiro, não havendo uma época em que não houvesse animais com algum nível consangüíneo. Os únicos animais que não apresentaram valores de consangüinidade eram os filhos de touros importados ou oriundos de inseminação artificial, sejam estes filhos de touros Shorthorn ou Lincoln Red. O que importa, neste caso, é o pedigree e não a raça. Portanto, não devemos pensar que ao cruzarmos com outra raça estaremos refrescando sangue, ou melhor, estaremos refrescando sangue, mas apenas por uma geração. De nada adianta re-acasalar as filhas com seus pais ou com seus irmãos ou meio-irmãos.

Notamos, também, que ultimamente, até mesmo rebanhos que usam inseminação estão com crescente valor de consangüinidade, devido ao parentesco das filhas e netas com os touros de inseminação usados.

Outro fator que está elevando os índices de “inbreeding”, é o uso de touros de repasse ou que são usados para cobrir fêmeas com cria ao pé. Estes touros são em geral produzidos dentro da propriedade e, portanto, parentes do resto do rebanho. Notamos níveis elevados de consangüinidade em alguns rebanhos mais conhecidos por nós.

O uso de sêmen de touros aparentados, também não minimiza o problema, pois sabemos que muitos touros usados em IA são de alguma forma, aparentados, como por exemplo, Leave Trasumante 168, o qual é filho de RPS Tribune, ou Byland Instant Spotlight (IA-39), que é filho de Instant Enticer (IA-36), Stonelea Winchester (IA-44), neto de Instant Enticer (IA-36) ou GFS Creole (IA-52), bisneto de Instant Enticer (IA-36), isto para citar apenas alguns touros, pois os outros atualmente em uso são aparentados de alguma forma.

Alguns dirão que o parentesco é longe e que isto não irá influir, mas se você tem uma vaca com algum parentesco acumulado e colocar touros também aparentados, a soma final pode ser grande.

Mas não se assuste, pois existem formas de diminuir este problema. O primeiro pensamento que devemos ter é saber alguma informação sobre os pedigrees de suas vacas e touros, não apenas pai e mãe. É necessário saber pelo menos até os avós ou se possível bisavós, pois a consangüinidade é cumulativa.

O uso de inseminação minimiza em muito a homozigose do rebanho, se for possível, procure touros de diferentes linhagens fora de sua propriedade para acasalar as vacas com cria, diminuindo, assim, a consangüinidade do plantel.

Mas, o principal seria a procura de novas linhagens para usar através de inseminação artificial, pois não é necessário refrescar sangue usando raças assemelhadas. Existem muitas linhagens novas e de grande qualidade dentro do Shorthorn. Além disso, existem linhagens excelentes de Shorthorn 100% puros, sem Holandês, Devon ou Ayrshire a disposição.

Procure saber o que você tem em seu campo e assim estará evitando problemas em curto prazo, através do conhecimento da genealogia de seus animais e do estudo de acasalamentos dirigidos.

Se algum dos senhores desejarem saber o coeficiente de consangüinidade de algum animal ou de seu rebanho, estamos a disposição para auxiliar aos amigos criadores de Shorthorn e Lincoln Red.

Podemos, também, programar acasalamentos para evitar ou ao menos minimizar a consangüinidade dentro de rebanhos. Estamos, mais uma vez, ao dispor dos interessados para isto.

Engº Agrº Jean Pierre Martins Machado
Vice-Presidente da Associação Brasileira de Criadores de Shorthorn e Lincoln Red
(53) 8406 2278

"Publicado em 24 de julho de 2007".

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