Consangüinidade na raça Shorthorn criada no Brasil

Na edição passadas deste Informativo, publicam vários dados referentes aos coeficientes de inbreeding ou coeficientes de consangüinidade, que estamos analisando através de um programa estatístico americano.

Analisamos o coeficiente médio de inbreeding separadamente para machos e fêmeas. Resultando em um gráfico abaixo detalhado, o qual nos mostra um maior coeficiente de consangüinidade nos machos. Isto deve ser usado como mais uma ferramenta no momento da compra de sêmen ou reprodutores, evitando-se ao máximo a aquisição de animais aparentados.

Todos sabem que um macho, quando comparado a uma fêmea, deixa um número muito maior de descendentes, isto ocasiona um aumento mais rápido na concentração de sangue consangüíneo em um rebanho. Salvo em situações, onde é desejado o aumento da homozigose de determinado reprodutor.

Os dados obtidos junto a ANC Herd Book Collares, podemos ver que, desde a abertura do Livro de Registro Genealógico, ocorrido em 1906, os valores de inbreeding na raça Shorthorn eram crescentes. Apenas durante a década de 40 houve um pequeno declínio nos valores, talvez esta diminuição nos valores de consangüinidade encontrados deva-se, ao fato, de que a raça Shorthorn estava em ascensão, ocorrendo uma freqüente importação de novos sangues do Uruguai e Argentina. Estas importações ocorreram de meados da década de 40 até meados da década de 50, favorecendo assim, a diluição da consangüinidade no rebanho gaúcho.

Durante a década de 50, os níveis de inbreeding no rebanho gaúcho aumentaram 40%, podemos notar, também, que nesta mesma época ocorre um aumento significativo nos números de registro da raça no estado. Este aumento segue na década de 60, sendo, portanto, as décadas de 50 e 60 a época áurea da raça Shorthorn no Brasil. Quando comparamos os valores de inbreeding encontrados na década de 50 com os valores acumulados na década seguinte, encontramos um mínimo aumento de 1%.

Nos anos seguintes, década de 70, os valores de inbreeding acumulados voltam a crescer, demonstrando um aumento de aproximadamente 25%. Durante esta década, ocorre à abertura do livro de registros PO para a raça Lincoln Red e Maine Anjou.

Não podemos associar a abertura dos livros de registro genealógico para estas duas raças congêneres com a necessidade de refrescamento de sangue do rebanho nacional, mas se estes fatos tiveram alguma associação, podemos afirmar que houve um pequeno aumento nos valores acumulados de consangüinidade de apenas 2%, retratado nos valores médios encontrados para a década de 80, alia-se a isto, o fato de que a partir da década de 80, a inseminação artificial passou a ser corriqueira nas cabanhas de Shorthorn, e os índices médios de consangüinidade tiveram aumentos pequenos.

Durante a década de 90 e durante os anos de 2000 e 2001, o valor médio de consangüinidade na população total de pedigrees analisados foi de 5% e 1% respectivamente. Nesta última década, as entradas de novos touros importadas por centrais de inseminação estrangeiras mantiveram os índices médios de consangüinidade sobre controle.

O que foi descrito acima, é mostrado na tabela abaixo e, na forma de gráfico.

 

Ano

Inbreeding Médio

Inbreeding Coancestral

1906-1920

0,42 %

0,18 %

1930

0,96 %

0,30 %

1940

0,80 %

0,25 %

1950

1,20 %

0,29 %

1960

1,22 %

0,18 %

1970

1,51 %

0,16 %

1980

1,54 %

0,14 %

1990

1,61 %

0,14 %

2001

1,62 %

0,15 %

Através do gráfico acima e da tabela anteriormente mostrada, podemos ver que os índices médios do inbreeding coancestral, isto é, o inbreeding médio dos antepassados dos animais analisados diminui a cada década.

Isto nos mostra que, embora os valores de consangüinidade médios acumulados na raça estejam tendo um acréscimo pequeno, pois, o aumento nos valores médios é dividido igualmente em toda a população desde 1906. Ao analisarmos a linha dos coancestrais, podemos presumir que, se, os antepassados dos animais avaliados a cada década tem seus índices diminuindo, estes mesmos animais avaliados estão apresentando valores médios de consangüinidade muito mais elevados do que parece.

Mas, para realmente sabermos se isto ocorre, analisamos os animais registrados nas duas últimas décadas, assim como os animais registrados apenas nos anos de 2000 e 2001.

A análise feita nos mostrou que em toda a população avaliada, de 1906 até 2001, 16% dos animais tem algum grau de consangüinidade.

Enquanto que, 27,2% dos animais nascidos na década de 80 apresentavam grau de inbreeding. Na década de 90, os animais que tinham inbreeding somam 23,6% da população. Mas, o resultado que mais nos surpreendem foi dentre os animais nascidos nos anos de 2000 e 2001, onde mais de 40% da população tem algum grau de consangüinidade.

Os valores médios encontrados por década foram os seguintes.

DÉCADA

PORCENTAGEM DE INBREEDING

1980-1989

2,2625 %

1990-1999

1,498 %

2000-2001

2,9991 %

Os valores mostrados acima devem ser vistos como um sinal de alerta para a raça Shorthorn durante estes próximos anos. Pois, um coeficiente de consangüinidade acumulado de 2,99% em apenas dois anos de registro é extremamente alto.

Recorro ao nosso passado, para alertar sobre a direção que os criadores irão tomar para evitar o desastre do excesso de consangüinidade. De nada adianta, abrir o livro de registro genealógico para raças congêneres, ou pior, usar genética de origem duvidosa como a que estamos recebendo “goela abaixo” pelas centrais de inseminação artificial, que não informam que tipos de animal estão comercializando sêmen, e posso afirmar com total convicção que a genética que está nos sendo comercializada é de origem duvidosa.

Mas, se os senhores preferem “índices de produção” ao invés de aliar os índices de produção, ao pedigree, à pureza racial e a conformação, esta é uma escolha que somente os senhores podem fazer.

Hoje, com os meios de comunicação que temos, com a facilidade de pesquisar novos e bons sangues, além da facilidade de importar material genético de qualquer parte do mundo, será uma lástima ver uma raça tão importante na história da pecuária moderna cair em desalento devido ao modismo momentâneo.

Engº Agrº Jean Pierre Martins Machado
Vice-Presidente da Associação Brasileira de Criadores de Shorthorn e Lincoln Red
(53) 8406 2278

"Publicado em 24 de julho de 2007".

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